APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


segunda-feira, 24 de abril de 2017

BATE-PAPO COM UM MESTRE DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS


ENTREVISTA COM ANTONIETO PEREIRA, QUADRINISTA

Entrevistador: Gilberto Cardoso dos Santos

GCS.: Caro Antonieto, gostaria que começasse essa entrevista falando-nos um pouco sobre suas origens familiares e geográficas.

AP.: Bom, caro Gilberto, as origens da minha família é uma mistura de espanhóis e portugueses. Os meus avós viviam na região da Paraíba, região aqui próxima da nossa, aqui perto de Nova Floresta. Segundo as informações que minha mãe me contava em vida o avó dela, meu bisavô, era um espanhol que estava fugindo das precariedades na época em seu país, ao vir parar aqui em nosso país se embrenhou nas matas e conseguira formar uma família com uma “Índia Cabocla”. E as origens de meus avós paterno, o que sei é que eles eram descendentes de Portugueses. A minha família é uma Junção de “Pereiras” por parte de meu pai e “Ferreiras” por parte de minha mãe.

GCS.: Até que série estudou? Fez algum curso de desenho ou aprendeu tudo por conta própria?

AP.: Consegui concluir os estudos agora há pouco tempo, em 2013. Não, não fiz nenhum curso, aprendi na marra mesmo até porque na minha época não tinha as facilidades que a garotada tem hoje, livros, vídeos na internet que ensinam facilmente qualquer um aprender a desenhar. Naquela época não tinha nada disso, como a nossa geração sabe. Era uma época em que a gente nem tinha Internet e muito menos sabíamos que ela iria existir um dia. Foi copiando mesmo os desenhos das minhas revistas em quadrinhos que eu colecionava. Elas eram as minhas fontes, meus mestres do aprendizado.

GCS.: Quando começou seu envolvimento com as histórias em quadrinhos?

AP.: Bem, tudo começou quando a minha irmã me presenteou com uma revista em quadrinhos intitulada “O CASAMENTO DO TIO PATINHAS – PARTE 2”, eu tinha uns 9 para uns 10 anos na época, eu estava começando a gostar de ler, mas nunca tinha lido quadrinhos antes. Depois comecei a conhecer um primo meu que desenhava muito histórias em quadrinhos de faroeste para ele mesmo, Francisco era o nome dele, mas era muito conhecido por “CHICO”, um baixinho que desenhava muito e  que morava no Paraíso. Bem, depois que vi os desenhos dele eu comecei a descobrir essa vocação tentando copiar os desenhos das minhas revistas, foi daí que o meu interesse por Histórias em Quadrinhos cresceu ainda mais até me tornar o que sou hoje.  

GCS.: Fale-nos sobre seus primeiros desenhos e da primeira revista que fez.

AP.: Meus primeiros desenhos, ou meus primeiros rabiscos vamos assim dizer, eu comecei no chão, pode parecer estranho, mas foi assim que comecei a ter o prazer de sentir a sensação de rabiscar meus primeiro desenhos. Eu e um colega meu carregava giz da escola e ia para a casa dele fazer desenhos no chão, era um momento bom aquele. Como todos sabem, quando a gente vem tomando gosto por uma coisa a gente não para mais, não é mesmo? Pois bem, aos poucos eu comecei a me interessar pela linguagem das histórias em quadrinhos, foi onde comecei a tentar criar as minhas primeiras histórias, inventar para ser mais claro. Com os meus 16 anos eu e uns colegas resolvemos inventar a nossa primeira revista em quadrinhos em nossa cidade, ela se chamava “A TURMA DO JOCA”, era uma revista infantil onde a gente apresentava nossas primeiras criações infantis que era Joca e sua turma e Cara de China, que foi uma criação de Erinaldo Santos (Neném), um grande desenhista que na época morava aqui e eu admiramos até hoje, apesar dele residir em Natal. O ano em que lançamos  a nossa primeira revista foi em 1991, foi uma produção feita em mimeógrafo eletrônico que era bastante caro na época, mas graças ao apoio do Campus Santa Cruz (UFRN) a gente conseguiu realizar o nosso sonho. Quero aproveitar aqui e agradecer o professor Marinho que na época era o diretor do Campus de Santa Cruz. Ele foi um grande incentivador para a gente nunca desistir de nossos sonhos.


GCS.: Que artistas dos quadrinhos  lhe serviram e ainda servem de inspiração?

AP.: Cara, são tantos viu, mas vou dizer os principais que me influenciaram, começando pelos estrangeiros: Frank Miller, John Byrne, Bilau. Agora os brasileiros: Mozart Couto, Flávio Colin, Watson Portela. Esses são os principais, existem mais, mas esses são os mais que me inspiraram.

GCS.: Você acha que as revistas em quadrinhos poderiam contribuir com a educação do país? Fale-nos sobre isso.

AP.: Sim, claro, e muito. Eu vejo que se as escolas vissem a importância das revistas em quadrinhos na alfabetização das crianças, a gente teria gerações de leitores e muitos formados em nosso país, mas como o preconceito ainda é grande do estado em relação em aceitar esse método nas escolas que estamos tendo uma dificuldade imensa em formar gerações de alfabetizados de verdade. É só pegarem uma criança de agora que lê quadrinhos e uma que não lê que veremos quem se sai melhor em nível de leitura. A gente sabe também que um cidadão que lê e é instruído ele tem mais chances de se tornar uma pessoa mais esclarecida sobre o que ocorre ao seu redor. Infelizmente, como todos nós sabemos, isso não é prioridade do estado; sabem eles que quanto mais uma população for analfabeta, melhor ainda para poderem controlar.

 

GCS.: Você tem feito importantes parcerias em suas produções. Conte-nos um pouco sobre elas.

AP.: Bem, sobre algumas parcerias que fiz posso citar algumas como a que Fiz com José Salles de São Paulo, na qual a gente produziu uma série em cinco partes chamada de “TIRAS vs MONSTROS”, onde a gente apresentou as aventuras de dois policiais que enfrentavam monstros. Outras mais foram com Alcivan Gameleira de Pau dos Ferros, no qual eu ilustrei algumas histórias de seu personagem o “CORCEL NEGRO” e o “PABLO RATO”. Outro que tive uma parceria foi o também pau ferrense Francinildo Sena, em que ilustrei histórias do seu personagem “CRÂNIO”, um alienígena que veio parar em nosso planeta Terra. Para terminar, gostaria de mencionar as grandes parcerias que tive com Jalmir Bezerra, apesar de ele ter procurado o ramo da publicidade em busca de sua sobrevivência, Marcos Cavalcanti, onde ilustrei “TIRAS e CHARGES” para o saudoso Jornal “MEMORIAL SANTACRUZENSE”, ao qual ele editava, e sem falar em ilustrações e capas para livros tanto de sua autoria e coletâneas poéticas. E por fim, Alessandro Nóbrega, de quem tive a honra de ilustrar seu primeiro livro infantil “O BESOURO E A BORBOLETA”, que foi lançado em 2016. Ótimas parcerias, e espero muito mais.




GCS.: Quantas revistas você já produziu? Cite-as e nos diga quais delas acha mais interessantes.

AP.: Bem, contando com a primeira revistinha que lançamos em 1991 para cá, foram exatas 6 produzidas. São elas: “A TURMA DO JOCA”, “IMPACTO QUADRINHOS”, “TIRAS vs. MONSTROS”, “CRÂNIO”, “O VIGIA” e por última “SANTA RITA DE CÁSSIA EM QUADRINHOS” que lancei em 2015. Eu gostei de todas; as que mais tive apego foi a de “SANTA RITA”, por ser uma produção feita em cima de pesquisa e a outra foi “TIRAS vs. MONSTROS”, por ser uma produção diferenciada dos padrões super-heróis.


GCS.: Você também é ilustrador. Fale-nos da experiência que teve com a produção do livro de Alessandro Nóbrega e de alguma outra que fez, além dos quadrinhos. Lembro-me que você também ilustrou a capa de alguns cordéis.

AP.: Bem, o livro infantil que ilustrei de Alessandro Nóbrega foi uma honra enorme, pois se trata de um tema para crianças no qual fiz ilustrações infantis. Foi o meu primeiro livro desse gênero que fiz. Confesso que foi uma experiência ótima, espero que a gente possa produzir mais projetos em parcerias no futuro. Em relação às outras produções que tive foi capas, ilustrações internas para livros, tanto para coletâneas poéticas quanto para produções particulares, inclusive quero ressaltar aqui que foi boa a parceria com todos. Sim, sem falar em capas para alguns cordéis que fiz, principalmente para o poeta Adriano.


GCS.: Além de sentir a satisfação de produzir obras de qualidade, você tem sido recompensado financeiramente com seus trabalhos?

AP.: Em partes sim e em partes não, como todos nós sabemos a produção cultural em nosso país ainda não suporta condições para que os artistas possam sobreviver diretamente de suas produções. Teve alguns trabalhos que fui recompensado, outros foi como colaborador em parcerias com outros artistas sem remuneração. Infelizmente a gente tem que sobreviver por fora para poder manter nossas produções culturais em forma de voluntariado, como posso assim dizer.


GCS.: Cite um ou mais produtores de histórias em quadrinho que deveriam servir de modelo para todos os que produzem quadrinhos no Brasil. Que pensa sobre a indústria construída por Walt Disney?

AP.:  Os artistas de histórias em quadrinhos brasileiros temos vários, que hoje produzem quadrinhos tanto para os Estados Unidos quanto para a Europa. O brasileiro mais influente, acredito que todos nós sabemos quem é, o velho Maurício de Souza, que hoje tem uma indústria de quadrinhos que consegue competir com a de Wat Disney. Segundo algumas matérias que li sobre a indústria de Wat Disney é que, o crescimento se deu com o aumento do mercado de entretenimento americano quando se expandiu por todo o mundo.

GCS.: Com que empecilhos você se depara nesta carreira? Julga-a espinhosa?

AP.: Um dos maiores empecilhos que encontro em produzir meus trabalhos é a falta de apoio por parte de projetos culturais que praticamente não existem; a falta de verbas para poder conseguir algumas impressões; tenho que conseguir apoio de uns e outros empresários, que às vezes não veem com bons olhos as histórias em quadrinho. E como é espinhosa viu, nem imagina como. Veja bem, tenho três projetos prontos para ir para a gráfica, mas por falta de verbas eles estão por enquanto engavetados.

GCS.: Fale-nos do trabalho que está a produzir sobre Fabião das Queimadas.

AP.: Bem, sobre o projeto que estou trabalhando sobre Fabião das Queimadas o que posso adiantar é, que estou romanceando a sua história sem perder o foco principal de sua biografia. Pretendo lançar no próximo ano, se Deus quiser. Não posso detalhar muito aqui o roteiro, o que posso adiantar é que toda pesquisa fiz sobre uns escritos que Hugo Tavares fez sobre toda a vida de Fabião. Estou gostando muito do projeto sobre a vida de Fabião das Queimadas em Quadrinho que estou trabalhando; espero que todos gostem de ler a sua história através da linguagem dos quadrinhos.


GCS.: Em que seus quadrinhos se diferenciam dos demais produzidos no Brasil?

AP.: Antes de eu responder gostaria de lhe dizer que, todos nós quando começamos a gostar de quadrinhos sempre temos aquelas grandes influências do mercado norte-americano através do universo de super-heróis. No início, quando comecei as influências eram os quadrinhos de super-heróis, depois aos poucos fui descobrindo o meu universo de produzir meus quadrinhos. Hoje, os meus quadrinhos são diferenciados dos demais devido ao tema regional que resolvi trabalhar, empregando a linguagem dos quadrinhos como forma de facilitar a informação dinâmica.

GCS.: Conhece outros desenhistas que, como você, fazem um bom trabalho aqui no Nordeste, mas não recebem a devida atenção?

AP.: Sim, vários. Além, é claro, de alguns que conseguem sobreviver produzindo para os Estados Unidos e a Europa. Os que produzem por conta própria como eu, são: Francinildo Sena, Alcivan Gameleira, Rodrigo Fernandes, todos de Pau dos Ferros. Emanoel Amaral, Gilvan Lira, Carlos Alberto, Marcos Guerra, Marcos Garcia, todos de Natal, e outros mais que não posso descrever aqui, devido o espaço de tempo. Mas há muitos no Nordeste que, como eu, com todas as dificuldades, conseguem produzir e divulgar seus próprios quadrinhos.

GCS.: Alguns acham que os quadrinhos têm por objetivo único divertir. Que outras funções poderiam ter tais produções?

AP.: Acredito que além da diversão que o universo dos quadrinhos proporciona, através de sua linguagem, podemos passar mensagens de superação, respeito, fé, dramatização, histórias e infinitos temas que podemos abordar empregando a linguagem das histórias em quadrinhos. Sem falar no emprego da alfabetização, incentivando os alunos do início do fundamental a gostarem mais da leitura. Todos que sabem ler até hoje, não todos, mas a grande maioria, aprendeu a gostar da leitura através da linguagem das histórias em quadrinhos.

GCS.: Diga-nos os meios de entrar em contato com você para encomendar revistas ou algum trabalho de ilustração. (E-mail, Facebook, Whatsap, Fone etc)

AP.: O meio mais fácil de conseguir encomendar algumas revistas minhas que produzi é através do Facebook ou do meu Email: antonietopereira@hotmail.com.

GCS.: Dê alguns conselhos aos que pretendem seguir esta carreira e deixe-nos suas palavras finais.

AP.: Para os que pretendem seguir essa espinhosa carreira dos quadrinhos, eu gostaria de dizer o seguinte: Primeiro, tenham bastante paciência; segundo, conhecimento de narrativa e algumas técnicas de desenhos básicos e terceiro, leiam bastante, pois quem trabalha com quadrinhos tem que ler de tudo, de uma bola de remédio a filosofia, pois tudo é informação para o cérebro. E através de bastante informação conseguiremos imaginar muitos traços e histórias contadas através das narrativas das histórias em quadrinho. Por fim, gostaria aqui de agradecer ao Blog da “APOESC”, que vem realizando um excelente trabalho em prol da cultura de nossa cidade e região através desse blog e do programa “APOESC EM CANTO E VERSO” veiculado todos os sábados pela Rádio Comunitária “SANTA RITA – FM”. A todos um grande abraço e um grande sucesso.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

LOUCURAS DA MODA - Gilberto Cardoso dos Santos


ENTREVISTA COM GILBERTO CARDOSO DOS SANTOS - Oliveira Caruso

ENTREVISTADO:  GILBERTO CARDOSO DOS SANTOS
 ENTREVISTADOR: Paulo Roberto de Oliveira Caruso (pseudônimo: Oliveira Caruso)Servidor público; revisor de textos; organizador de concursos literários, antologias e eventos literários. Administrador e advogado pela Universidade Federal Fluminense. Integrante de Academias de Letras e Artes. Entre suas  funções em Academias encontram-se: atual presidente da Academia Brasileira de Trova; vice-Presidente da Academia Evangélica de Ciências, Artes e Letras do Brasil e secretário de Diplomacia e Comunicação da Academia de Letras do Brasil (seccional Minas Gerais). 
Oliveira Caruso

Gilberto Cardoso
  1. De onde você é? Quando você começou a se aventurar na literatura? Sofreu influência direta de parentes mais velhos, amigos, professores? O que aprendeu na escola o instigou a criar textos?

Nasci em Cuité, capital do Curimataú paraibano. Mudei-me muito jovem para Santa Cruz/RN, a fim de fazer faculdade; neste lugar onde hoje se ergue a maior estátua da cristandade, fui agraciado com o titulo de cidadão e até o momento resido.

Comecei a produzir alguma coisa ainda muito jovem. Quando adolescente, escrevi uma peça humorística intitulada “A Morte de Jesus Cristo no século XX", encenada e bem apreciada em minha cidade. Escrevi diversos poemas que traziam a marca de autores modernistas.

Independentemente da escola, desenvolvi gosto pela leitura ainda muito jovem. Lembro-me de pessoas sentadas – eu entre as tais - nalgum batente à noite, ouvindo histórias de Trancoso e leitura de cordéis. Violeiros e vendedores de cordel circulavam por nossas feiras; como era bom ouvi-los a cantar ou a ler histórias rimadas que até hoje povoam o imaginário nordestino!

Amigos – alguns deles hoje figurantes e fulgurantes na história literária de Cuité e de Santa Cruz - exerceram positiva influência sobre mim, mais que os professores. Ramilton Marinho, Dinamérico Soares, Aécio Cândido, Zé de Luzia, Hélio Crisanto, Naílson Costa, Adriano Bezerra, Marcos Cavalcanti e Zé Acaci são alguns dos muitos nomes que me vêm à memória no momento. Em amplo sentido, crescemos juntos!

Por falar em professores, recordo-me de dois episódios que alimentaram meu amor pela leitura e pela escrita. Vivíamos num tempo em que livro era artigo raríssimo. Uma vez fui premiado por Doutor Orlando, professor de português, com uma antologia escolar de crônicas e fiquei muito feliz. Lembro-me, também, de uma vez que fiz um trabalho em versos e o professor, diante de toda a classe, colocou em cheque minha honestidade. Num tempo em que não havia Internet, achou ele que eu havia copiado de algum livro de poemas e demorou a crer que de fato fosse meu. Isso de algum modo me levou a acreditar que meus textos tinham alguma qualidade.


  1. Você já leu muitas obras e lê frequentemente? Que gêneros (poesia, contos, crônicas, romance) e autores prefere?

Li e leio muito, sim – hoje menos por causa das muitas ocupações e fatores de desatenção próprios dessa época. Tive a sorte de residir próximo à casa de Miguel de Almeida, irmão do ex-governador da Paraíba José Américo de Almeida, autor de A Bagaceira. Em sua rica biblioteca tive acesso a ótimos livros. Também pegava livros na biblioteca local. Obras de José Lins do Rego, Jorge Amado, Gabriel Garcia Marques, Drummond, Padre Antônio Vieira, Manuel Bandeira, Fernando Sabino, Rubem Braga, Ariano Suassuna... Gosto dos quatro gêneros. Posteriormente li Crime e Castigo, de Dostoiévsky, obra fantástica. O contista potiguar Ney Leandro de Castro tem textos excelentes. Rubem Fonseca, Luís Fernando Veríssimo, são todos escritores dignos de recomendação.


  1. Costuma fazer um glossário com as palavras que encontra por aí (em livros, na internet, na televisão etc.) e ir ao dicionário pesquisá-las?

Quando escrevo algo, às vezes tenho dúvidas sobre alguma expressão ou vocábulo. Nestes momentos empreendo alguma pesquisa até certificar-me de que farei correto e bom uso do termo.


  1. Há escritores de hoje na internet (não consagrados pelo povo) que admira? Em sites, Academias de que de repente você participa etc.

Sim, há muitos. Zé Acaci, Hélio Crisanto, Marciano Medeiros, Zé Ferreira, Mariana Teles, Rosemilton Silva, Francisca Araújo, Carlos Fialho, Hélio Alexandre e muitos outros. O Ramilton Marinho, por exemplo, escreveu uma coletânea de contos muito boa: Ninguém matou Baltazar. O Luiz Berto publicou um romance envolvente, de cunho regionalista, intitulado O Romance da Besta Fubana.  Na Internet e fora dela, com e sem publicações, conheço escritores valiosos que mereceriam uma maior projeção entre o público leitor.


  1. Você costuma participar de antologias? Acha-as algo interessante? Participaria de uma se eu a lançasse?

Costumo, sim. Já participei de uma antologia em prosa e verso intitulada Cantos e Contos do Trairi, organizada pela ASPE. Acho as antologias tão interessantes e úteis a quem se inicia na escrita que organizei e participei da coletânea APOESC em verso e prosa, publicado este ano; por último, tive a honra de figurar com um de meus cordéis numa antologia organizada pela ANLiC (Academia Norte-rio-grandense de Literatura de Cordel) batizada de O Cordel da Nossa Gente. Figurar entre nomes de peso da literatura popular para mim foi motivo de muita alegria. Também fui convidado pelo poeta e grande ativista cultural Antônio Cabral a participar de duas antologias de trova, uma organizada por ele e outra pela UBT. Regozijei-me com o convite e certamente poderei fazer parte de alguma organizada por você e sua equipe.


  1. Você é membro de Academias de Letras? Aceitaria indicações para ingressar em Academias de Letras como membro?

Não sou membro de nenhuma academia. No passado recusei o convite para ingressar em uma devido a empecilhos geográficos. Sou membro e um dos fundadores da APOESC – Associação de Poetas e Escritores de Santa Cruz, que costumo divulgar como Associação de Poetas, Escritores, Simpatizantes e Colaboradores. Aliás, desde quando sugeri essa sigla tive em mente essa dubiedade de sentido.


  1. Tem ideia de quantos textos literários já escreveu? Há quanto tempo escreve ininterruptamente?

Tenho muita coisa escrita em pastas do computador, principalmente em versos. Daria vários livros. Desde a adolescência escrevo. Também tenho crônicas e contos que pretendo publicar.


  1. Você tem dificuldade de escrever em prosa, em verso? 

Às vezes surge uma ideia que nos parece interessante e não sabemos em que gênero expressá-la. Prosa e poesia me parecem difíceis, dependendo do momento. Às vezes acalento o sonho de escrever um ou mais romances.


  1. Você possui algum lugar onde publica textos virtualmente? Qual? 

Publico textos no Blog da APOESC e no Blog do Gil (http://apoesc.blogspot.com.br/ e http://bloggcarsantos.blogspot.com.br/ )


  1. Que temas prefere escrever? Prefere ficção ou o que vivencia e vê no dia a dia?

Gosto de temáticas extraídas de minha vivência, mas exploro temas que nascem da imaginação. A mescla de ficção e realidade me fascina.


  1. Aprecia outros tipos de arte usualmente? Frequenta museus, teatros, apresentações musicais, salões de pintura? Está envolvido com outro tipo de arte (é pintor, músico, escultor?)

Moro num interior onde não há muitas apresentações culturais. Temos, todavia, um teatro onde sempre que há algo vou assistir e onde também vez por outra me apresento cantando e declamando. Temos um projeto chamado APOESC Recitando o Sertão, eu e outros membros da associação, que já contou com patrocínio do BNDES. Admirador doutras expressões artísticas, vez por outra entrevisto algum artista local, seja no programa de rádio APOESC em Canto e Verso, seja em vídeos divulgados no Youtube. Ex.: https://www.youtube.com/watch?v=pC4I378UAbI


  1. Que retorno você espera da literatura para si mesmo no Brasil? E a nível de mundo?

Escrevo primeiramente pelo prazer de registrar algumas coisas que me encantam. Percebo que a vontade de ensinar ou filosofar sobre determinados temas é o que me guia. Tenho tido algum retorno financeiro e reconhecimento com os cordéis que publiquei, com os musicais que escrevi (auto de Santa Rita e Auto de São Sebastião) e isso é muito satisfatório. Ser saudado na rua por alguém que para pra comentar sobre algum texto meu é bem prazeroso. Sinto-me a cumprir uma missão.  Não tenho grandes pretensões. No entanto, conforme detalhei em minha dissertação de mestrado, desejo muito que a cultura regionalista dos meus estados (PB e RN) não venha a desaparecer nem seja relegada à marginalidade como consequência da globalização. Antes, com as possibilidades criadas pelo avanço tecnológico, que possa universalizar-se sem perder nenhuma de suas características. Mediante o processo de globalização o cordel e a cantoria de viola, por exemplo, poderão subsistir no mundo moderno e ganhar a repercussão nacional e mundial que deveriam ter.


  1. Você acha que o brasileiro médio costuma ler? Acha que ele gosta de literatura tradicional ou só de notícias rápidas e sem profundidade?

Infelizmente, amigo, a parte dominante dos brasileiros é constituída por iletrados e analfabetos funcionais, conforme indicado por pesquisas do INEP. A maior parte dos poucos que leem, dedica-se a “notícias rápidas e sem profundidade”. A Internet nos proporciona novos modos de ler, mas em geral os internautas não aproveitam bem as grandes riquezas literárias e científicas que têm ao dispor. Há uma onda de leitores de best sellers, o que não é de todo mal, mas bem reduzido é o número dos que valorizam a literatura de boa qualidade.  


  1. Você costuma registrar seus textos na FBN antes de publicá-los? Sabe da importância disso?

Não. Acabo de ter minha atenção despertada para esta necessidade. Vou pesquisar a respeito e desde já conto com sua orientação.


  1. Já tem livros-solo publicados? Consegue vendê-los com certa facilidade?

Tenho cordéis publicados, opúsculos com poemas mais ou menos longos que contam alguma história ou dissertam sobre algum tema. Tenho “certa facilidade” em vendê-los, sim. 


  1. Já conhecia o poeta-escritor Oliveira Caruso (desculpe-me... Esta pergunta é padrão para quem participa de meus concursos literários)?

Não. Ao ser abordado por você, recorri ao Antônio Cabral e ele me passou excelentes e admiráveis informações a seu respeito. Com o aval dele, dei continuidade a este contato. Como a melhor propaganda é um “cliente” satisfeito, vou ler suas produções baseado no que me disse o Antônio, certo de que terei razões para me encantar.


  1. Você trabalha com literatura inclusive para aumentar sua renda ou a leva como um delicioso hobby?

Como hobby e para aumentar a renda. Vez por outra eu e outros da associação somos remunerados para ministrar algum curso, apresentação ou seminário e o hobby se torna duplamente satisfatório.


  1. Você trabalha(ou) fora da literatura?

Sim. Sou professor da rede estadual do RN, com dois vínculos.


fonte: http://reinodosconcursos.com.br/entrevista-com-gilberto-cardoso-dos-santos

sábado, 15 de abril de 2017

LINDOS POEMAS E XILOGRAVURA DE EDCARLOS MEDEIROS

Xilogravura de Edcarlos feita por Jefferson Campos


ACRÓSTICO

Escrever me contagia
Declamar traz alegria
Com pureza e maestria
Acelera o coração
Revelando-me uma seta
Leva-me a trilha da meta
O oficio que me completa
Ser poeta do Sertão.

Edcarlos Medeiros
Caicó/RN – 29 de outubro 2015.

GALOPE AUTOBIOGRÁFICO

Me chamo Edcarlos Medeiros Soares
Fazer poesia é a minha paixão
Por isso dedico total atenção
Levando os meus versos a todos lugares
Vivo com a cabeça assim pelos ares
Igual passarinho liberto a voar
Seguindo em frente e sempre a pregar
Mensagens de força, afeto e harmonia
Na essência que trago na minha poesia
Para que alguém leia e possa sonhar.

Eu tiro os meus versos de forma singela
Das coisas mais simples daqui do Sertão
Deixando aflorar toda minha emoção
Buscando as expor da maneira mais bela
Sentindo a magia que a mim se atrela
E faz o meu peito mais forte pulsar
É dessa maneira o meu caminhar
Rompendo as veredas com toda bravura
Levando a bandeira da nossa cultura
Presente em peito sempre a tremular.

Escrevo poesia olhando a beleza
Que tem no sorriso de uma criança
É quando eu me visto total de esperança
Prevendo um futuro de vasta nobreza
Todos ajudando a mãe natureza
De forma espontânea querendo a salvar
Porém outras vezes começo a chorar
Ao ver um menino pedindo um trocado
Vagando nas ruas faminto e drogado
Distante da escola sem pai e sem lar.

E assim dessa forma eu vou misturando
Minha alegrias com minha tristezas
Varias evidências, também incertezas
E um mundo de sonhos vai se edificando
Escrevo sorrindo e até mesmo quando
As lágrimas querem no rosto rolar
Perdendo ou ganhando aprendo a jogar
No jogo da vida eu caio e levanto
Sacudo a poeira, enxugo o meu pranto
Refaço a estratégia e volto a lutar.

Debruço-me a mesa com lápis, papel
E a imaginação já transborda da mente
As palavras surgem de forma fulgente
E eu busco a elas ser muito fiel
Escrevendo glosas, sonetos, cordel
Sentindo a magia de mim se apossar
Com a musa poética a me inspirar
Eu sei que jamais estou só nesta vida
Pois ela me guia nos passos da lida
Mostrando o caminho que devo trilhar.

Não me incomoda quem diz que sou louco
Pois a poesia é droga divina
Que a mim entorpece mais que heroína
Tou sempre querendo usar mais um pouco
Declamo meus versos até ficar rouco
E dessa maneira irei continuar
Já que a abstinência não deixa eu parar
E o meu ser por ela já está dominado
De versos e posas eu vivo drogado
Não passo um só dia sequer sem usar.

Porém não procurem na minha poesia
Uma só palavra de baixo calão
Meus versos não mandam descer até o chão
Tratando a mulher sem nenhuma avalia
Eu não me utilizo da pornografia
Falando pro povo sentar ou chupar
Jamais dessa forma irei apelar
Só faço poesia de forma descente
Com muito respeito a toda essa gente
Que ler os meus versos e vem me escutar.

Eu acho divino a beira do mar
Com suas paisagens de rara beleza
Só mesmo o Deus pai com imensa destreza
Teria o poder de tais obras criar
Porém se alguém quer me ver engrossar
Só basta dizer que daqui eu me mude
Que irei responder com bastante atitude
Não troco esta terra nem por um bilhão
Pois gosto é das coisas daqui do Sertão
Meu dez de galope? É NA BEIRA DO AÇUDE!

Edcarlos Medeiros
Caicó/RN – 23 de março de 2015.


 LABOR POÉTICO

Exaltando a humildade em meu conceito
Vou tentando escrever minha poesia
Espalhando com amor essa magia
Que transborda do fundo do meu peito
A poesia tornou-se o meu preceito
Que serena os percalços dessa vida
Se me vejo por vez de alma perdida
É nos versos que busco me encontrar
E ao sentir a poesia em mim brotar
Vejo o quão santa e louca é essa lida.

Feito aranha tecendo a sua teia
Nesse quebra-cabeça de palavras
Arquiteto e executo as minhas lavras
Acendendo essa luz que me incendeia
Cada verso que Deus me presenteia
Mais eleva em meu ser essa paixão
E com o peito repleto de emoção
Ao notar a poesia me envolver
Ergo a face aos céus pra agradecer
Pelo dom da divina inspiração.

Mas por vez sou abelha que da flor
Espolia a matéria para o mel
Sorrateiro a buscar com tal papel
Colocar mais doçura em meu labor
Perco o tino e trafego com fervor
Por jardins que talvez nem deveria
E na busca de achar essa alquimia
Vivo instantes de intensos despudores
Extraindo esse néctar dos amores
Pra adornar de lirismo a poesia.

Se me ausento da escrita a mente pira
E eu me vejo em profunda nostalgia
Quando tento escrever uma poesia
Mas a musa poética não me inspira
Porém quando a presença dessa lira
Faz pulsar bem mais forte o coração
Com a verve fluindo em profusão
As paisagens se tornam bem mais belas
Cristalizo a beleza em aquarelas
Com a tinta da minha inspiração.

Caminhando nas trilhas dos cordéis
Vejo o quanto que essa arte me completa
Mas tornar-me o melhor nunca foi meta
Pois eu sei que não chego nem nos pés
De outros tantos gigantes menestréis
Mesmo assim não me canso de escrever
Semeando meus versos com prazer
Como expôs ‘Djavan’ com maestria
“Se eu tivesse mais alma, entregaria
Porque isso pra mim é que é viver!”

Edcarlos Medeiros
Caicó/RN – 08 de fevereiro de 2017.


Pó-esia

Eu jamais fui de drogas dependente
Nem cigarro, bebida ou cocaína
Sempre agi com bastante disciplina
Para não me tornar um delinquente

Mas uma droga divina e atraente
Foi mudando o trilhar da minha vida
Relutei, mas em vão, não vi saída
A tal droga fisgou-me fortemente

Seu poder me deixou tão viciado
Passo as noites sonhando acordado
Perambulo extasiado em pleno dia

Quando a uso eu consigo flutuar
Rodo o mundo e nem saio do lugar
Pois a droga q’eu uso é poesia.

Edcarlos Medeiros
Caicó/RN – 10 de janeiro de 2016.


Ser– tão

Sou da terra de um povo resistente
Que já traz no semblante a sua sina
De lutar da maneira mais divina
Enfrentando com garra o sol ardente

Onde a seca malvada predomina
Nove meses do ano vorazmente
E a paisagem que tem neste ambiente
Sem piedade ela logo descortina

Porém quando do céu a chuva desce
Tudo em volta depressa refloresce
Espantando pra longe essa aflição

E em três meses de encantos e bonanças
O meu povo renova as esperanças
Quer saber de onde eu sou? Sou do Sertão!

Edcarlos Medeiros
Caicó/RN – 10 de outubro de 2015.


Trigésima sexta primavera

Trinta e seis primaveras e agradeço
A Deus pai o milagre desta vida
Por poder cumprir sempre a minha lida
Com amor, humildade e muito apreço

Cada dia pra mim é um recomeço
E a batalha jamais dou por perdida
Pois se as vezes a dor de uma ferida
Me machuca, procuro no tropeço

Aprender a cair e levantar
E na queda mais forte me tornar
Pra poder prosseguir na minha meta

De exaltar a cultura popular
E se os versos a nada me levar
Já me basta o prazer de ser poeta.

Edcarlos Medeiros
Caicó/RN – 01 de novembro de 2014.


VERVE SERTANEJA

Caros senhores, licença!
Permitam-me, uma fala!
Não tenho muita sabença
Pois minha cartilha é rala
Não sou Drummond de Andrade
Já que da grande cidade
Só mesmo escuto falar
Mas com bastante emoção
Nos meus versos, o sertão
Irei agora exaltar.

Não julguem meu linguajar
Pois como bem já falei
Eu pouco pude estudar
Na luta cedo, adentrei
Meus versos não são iguais
De Vinicius de Moraes
Que a minha diplomação
Foi feita a foice e machado
E como certificado
Lhes mostro os calos, na mão.

Podem chamar-me, João,
Batista, Antônio ou José,
Pois sou representação
De um povo de muita fé
Sou olhar fixo pro céu
Pedindo a Deus que o escarcéu
Da seca tão inclemente
Der trégua pra nossa terra
E o seu cenário de guerra
Não dizime a nossa gente.

De maneira competente
Não sei decantar o mar
Pois meu verso é inerente
As coisas do meu lugar
Não sei falar da beleza
Da moça fina, burguesa
Que tem a face pintada
Porém falo da matuta
Que acorda cedo, labuta
E tem a pele queimada.

Não me peça uma toada
Para exaltar a riqueza
Que essa sua empreitada
Seria indelicadeza
Não espereis coisas boas
Que as minhas humildes loas
Com isso não faz adorno
Invés do tinir de joia
Prefiro o som da tipoia
Armada e a ranger no torno. 

Não quero causar transtorno
A quem a mim escutar
Forjo o meu verso no forno
Do calor do improvisar
Não sei compor obras primas
Que as minhas singelas rimas
Não possui grau de nobreza
Sou um matuto do mato
E a minha verve de fato
Provém da mãe natureza.

Com encanto e sutileza
Decanto a vida de gato
Sempre exaltando a beleza
De um sertão abençoado
Do gato maracajá
E o canto do sabiá
Espalhando a melodia
Do inverno em profusão
Devolvendo ao meu sertão
Toda beleza e magia.

Ao contemplar com alegria
A terra outra vez molhada
E a planta que antes jazia
Com sua copa florada
Bate forte o coração
Me enchendo de inspiração
De forma peculiar
Ser sertanejo, seu moço
É sempre após o destroço
Saber se recuperar.

Quem nasce neste lugar
Parece que tem mandinga
Tá sempre a se renovar
É igualmente a caatinga
Que perde a sua folhagem
Mas enfrenta a estiagem
Com coragem e paciência
Que só mesmo o pai dos pais
É quem pode ser capaz
De explicar essa ciência.

Por isso que a minha essência
É puramente sertão
E com bastante decência
Busco falar deste chão
Sou a Deus agradecido
Por no sertão ter nascido
Pois este pó me completa
E com bastante alegria
Convivo com a fantasia
De ter nascido poeta.

Edcarlos Medeiros
Caicó/RN – 09 de novembro de 2015.