APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


domingo, 19 de fevereiro de 2017

SAUDADES DA MINHA TERRA - Adriano Bezerra


SAUDADES DA MINHA TERRA Deixei a minha cidade, O lugar que eu nasci, Porque oportunidade Não pude encontrar ali. Mesmo querendo ficar, Fui obrigado a deixar Para não morrer de fome Deixei meu lugar, tristonho E voltar, hoje é meu sonho, A saudade me consome!

Adriano Bezerra 19/02/2017

sábado, 18 de fevereiro de 2017

SANTA CRUZ EM PROSA E VERSO - Zé da Luz



SANTA CRUZ EM PROSA E VERSO

Há exatamente oito dias passados, numa noite de sábado festiva, o Teatro Candinha Bezerra foi palco de um acontecimento literário cultural. Na verdade, multicultural. Pois, em meio a músicas e declamações, se deu o lançamento, em grande lume, de dois livros literários: Apoesc em prosa e verso (antologia com textos de 50 autores) e Nas veredas de mim mesmo (poemas, do poeta, cantor e compositor Hélio Crisanto), como também estava sendo divulgado o CD de músicas religiosas – Vinde, adoremos – de Arthur Nóbrega.

A APOESC – Associação de Poetas e Escritores de Santa Cruz – vem expandindo as trilhas deixadas pela ASPE (Associação de Poetas e Escritores), ao produzir e promover a cultura literária, falada, escrita e cantada, da cidade de Santa Cruz e região.  A razão de tamanho sucesso da APOESC se deve, primeiramente e reconhecidamente, aos espíritos altruístas de Gilberto Cardoso e Hélio Crisanto, que desenvolvem, além dos ofícios profissionais próprios, o trabalho artístico nos campos da literatura popular e da música nordestina sertaneja. Segundo, porque inegavelmente a APOESC conta com o apoio de inúmeros colaboradores e simpatizantes, capazes de respaldar sempre as iniciativas exitosas dessa dupla de modernos menestréis.

O lance e o alcance das publicações da APOESC já despertaram o interesse e o entusiasmo de muitos leitores, muito além das cercanias do Trairi. A APOESC tem reunido poetas jovens e maturos, prosadores de ontem e de hoje, acolhendo seus trabalhos e dando-lhes visibilidade, voz e vez, em prol da consolidação de uma literatura local e regional, que tem fôlego e asas para alcançar ares universais. Para tanto, a Associação dispõe de Blog, programa músico-literário na Rádio FM Santa Rita e do Grupo Amigos da Cultura Popular, no WhatsApp.

A matéria predileta da APOESC é a poesia.

Então, sábado, 11 de fevereiro, se emoldura em nossa memória como data marcante, inesquecível. Noite de trovas e prosas. Santa-cruzenses e viandantes de outras paragens re-viveram os embalos de um sábado à noite regados à boa música e à poesia boa. Foi realmente uma noite de apoteose da palavra. Da palavra poética.

Lembro, por fim, que Deus nos deu a vida, o pão... e a poesia (o verbo).
E, depois da oração, somente a poesia nos aproxima do divino.
 
José da Luz Costa

Professor (UFRN)


Veja mais sobre o evento em 

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

ALVA MARIA - Nelson Almeida



ALVA MARIA Alva no nome Alma sombria Ostenta o cargo Que inculta ocupa Voraz é tua perseguição Injusta é a tua justiça Oh, Alva Maria! Caças incansavelmente Irrevelável contravenção Cobras cegamente Severa punição Sem saberes, brava Maria Que não se pode punir A quem não se discorre o delito Dito isto, tenho dito Que pacientemente espero Que ajas solenemente Débil posicionamento Não queiras castigo eterno A quem tem carne efêmera Não queiras a ruína De quem tudo perdeu Dito isto, tenho dito Que espero paciente Enquanto curo a minha alma Ver-te agir debilmente.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

OPINIÕES SOBRE O DUPLO LANÇAMENTO DA APOESC




Jose Rosemilton Silva

Bom dia. Fiquei muito feliz ontem em participar do lançamento de dois livros em Santa Cruz, no Teatro Candinha Bezerra, colocados a disposição dos leitores pelo excelente poeta Hélio Crisanto - Nas veredas de mim mesmo - e pela Apoesc, tendo a frente outro especial poeta, Gilberto Cardoso dos Santos, numa antologia reunindo gente de tudo quanto é canto. Me vi nos anos 60 quando havia uma ebulição cultural em Santa Cruz através da disputa benéfica e salutar dos grêmios lítero-recreativo das escolas Normal e Comercial. Fiquei impressionado com o envolvimento de crianças e adolescentes no recitar de poesias belas, cordéis maravilhosos e, tudo isso, recheado pelo canto afinadíssimo dos dois promotores da noitada cultural. Teatro cheio nos leva a crer que a festa literária de Santa Cruz volta a ganhar corpo mesmo sem tantos incentivos. Parabéns!


Parabéns, nobre Poeta Gilberto! Ter a honra de participar com grandes nomes de tua publicação. Obrigada pela oportunidade, e o zelo com o qual cuidaste desse evento. Bom saber que a Cultura ainda enche nossos teatros.Deus o abençoe grandemente!



Ana Lucia 

Parabéns a Apoesc Associação de Poetas, através das pessoas de Hélio Crisanto e Gilberto Cardoso Dos Santos pela organização e realização do evento e pelo lançamento dos livros. Estava tudo perfeito, voltei para casa de alma revigorada e a cabeça cheia de "ideias". Com certeza iremos recorrer a vocês, grandes poetas para colocá-las em prática aqui no município de Lajes Pintadas. Um abraço e muito sucesso e inspiração a vocês, grandes poetas.


Robson Freitas 


O Blog participou mais uma vez do lançamento do livro "Nas Veredas de Mim Mesmo" de autoria do poeta santa-cruzense Hélio Crisanto, este amigo a quem admiro seu trabalho musical e literário.

Na oportunidade também esteve lançando sua obra literária "Apoesc em Prosa e Verso" o querido poeta Gilberto Cardoso, também da cidade de Santa Cruz, foi uma noite memorável, de muita poesia e musicalidade, de pura cultura nordestina.

Prestigiei este evento, juntamente com minha esposa, Jaira Freitas, ambos damos o devido valor a cultura local, da nossa região, enfim a cultura brasileira. 

Vários poetas e amantes da cultura nordestina abrilhantaram este evento que aconteceu no Teatro Candinha Bezerra, na cidade de Santa Cruz. O lançamento duplo dos poetas supracitados foi sucesso de público, o teatro simplesmente lotou.

Na oportunidade também registrei em vídeos algumas apresentações dos poetas, inclusive do jovem poeta tangaraense Danilo Teixeira. 

Eu como sempre gosto de prestigiar a pura cultura nordestina, gosto da poesia, versos e principalmente da nossa música. Todos estes atrativos pude conferir de perto nesta noite de lançamento dos livros dos amigos poetas santa-cruzenses Hélio Crisanto e Gilberto Cardoso. - Robson Freitas, blogueiro tangaraense. (Ver mais em 


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

SAUDOSISMO


Na quietude dessa nostálgica noite de verão, Um cheirinho de saudade exala no ar. A priori, timidamente e, Com o passar das horas, Rasga sem compaixão o meu peito. Em meio a poeira de caixas abertas Espalhadas pelo velho piso do meu quarto, Fotografias e cartas despertam velhas lembranças... Nós fomos ensinados que o tempo desgasta Principalmente, tudo aquilo que é físico. Que eufemismo! Acima de tudo, ele dilacera a alma impiedosamente

- JÁRIA MEDEIROS

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Anágua da Saia Dela - Sabrina Dorico


Anágua da Saia Dela

Pele branquinha e serena
Cabelos pretos, grisalhos, longos.
Brava como o vento zangado
Traços finos e fidalgos, azul o seu sangue.
Destemida essa Rita
Rita Saldanha Dorico
Tão brava e segura
Mãe de nove rebentos
 Vestindo chita que mais parecem linhos
Alfazema seu cheiro
Arrumada com anágua e pente nos cabelos
Que belezura és tu, Rita
O seu lar exala doçura
Uma mulher digna e cheia de bravura.


Sabrina Dorico


domingo, 12 de fevereiro de 2017

ALVORADA - Nelson Almeida


ALVORADA Eu não sei fazer poema Nem escrever cantoria Mas sei que ao nascer do dia O orvalho molha a terra O sol queima e alumia O capim brota do chão Deixando tudo verdinho Isso é bem de cedinho Quando desponta o nascente E o velho Joaquim Clemente Na beirada da calçada Bebe de uma "lapada" Uma dose de água ardente Pássaros em revoada Cruzam o céu em harmonia Cortejando a natureza Com beleza e alegria Diante de tanta beleza Da natureza exposta Derramo rapidamente Sobre esta folha morta Palavras de nostalgia Mesmo sem fazer poema Ou escrever cantoria Nelson Almeida

domingo, 5 de fevereiro de 2017

SONETO DA PAIXÃO PRETÉRITA - Nailson Costa


E eis-me aqui, sentado, a pensar nela Olhando pra nuvem que agora passa E esse vinho seco na minha taça Eu quero fazer um brinde com ela É DE difícil alcance pra mim Ela na nuvem alta meio sem rumo. Eu no reflexo do vinho sem prumo Com sua imagem no cálice sem fim. Nuvem dela que com o vento desce Lá pras bandas do sertão Imagem em seca vegetação De espinhos que a bela não mais merece E eu com vinho seco na minha mão Chamando a bela com a minha prece.


Nailson Costa

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Cheiro de Amar - Sabrina Dorico


Cheiro de Amar

O amor é consolo da alma
Antes tal rolo
Já estou segura de mim mesma
Sigo meu caminho
Ando sozinha

Meu sofrimento já foi tormento
Hoje é só alento
Depressa, finjo esquecer.

Mas, se um dia a minha alma.
Te encontrar chorará.
Correrei muito para esconder-me
Pois se não te vejo, me contento.
Curada estou com sofrimento
Não responderei por mim, se contrário for.
Livra-me, senhor, dessa dor

Fito meus olhos no breu
Não corro risco de te encontrar por lá
Penso em ti em mim
Penso em ti; grito em silêncio teu nome por dentro.

Vagas são as lembranças
O que mais me alcança é o seu cheiro
Ah... Aquele cheiro!
O cheiro perfumado e leviano
De várias cores e maneiras
Impregnado como o perfume das flores na primavera
       Sabrina Dorico




DOIS IMPORTANTES LANÇAMENTOS!!




quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

NA PROSA DA VIDA - Sabrina Dorico


Na prosa da minh'alma
Reviro do avesso os retalhos
Que foram ficando no passado
Da tristeza e do abandono
Vida simples e solitária
Orgulho do feito
Das conquistas poéticas
Que maneira tão simples
É reviver bons momentos
Me contento de tal maneira
Que se fosse uma princesa
Um vestido seria assaz o suficiente
Mas, se um dia eu conseguir
Te dizer, mostrarei
Que te amar foi o bastante.

sábado, 28 de janeiro de 2017

Os Ossos do Papai - Conto de Júnior Dalberto


Os Ossos do Papai

Junior Dalberto


Aquela quinta feira prometia, pensou Henrique e colocou o saco de lixo negro sobre o banco à sua esquerda no balcão do quiosque do Mocotó da Márcia que era também o nome da proprietária, uma negra de quarenta anos de idade, viúva, magra, pequena e de quadril largo, olhos grandes, negros e sedutores, bonita e mãe de um único jovem atarracado de dezesseis anos, um sarará de nome Edvaldo que a ajudava de dia na cozinha da barraca e estudava a noite, eles moravam em uma casa no distante munícipio de Paulista de onde saíam todos os dias às seis horas da manhã em um fusquinha azul clarinho, ano 1978, herança do marido, até o mercado de São Pedro no centro do Recife onde se localizava o famoso quiosque.
O pernambucano, de Nazaré da Mata, estava sedento por um copo de cerveja desde que saiu no pingo do meio-dia, com os restos dos ossos do falecido pai, do cemitério municipal da cidade dos maracatus sob um sol de quarenta e cinco graus à sombra. A cerveja desceu geladinha, suavizando a sede, mas, não passando a mesma; tomou mais um grande gole e ficou divagando, sorvendo mais goles e imaginando se esse prazer sorvido seria idêntico a sensação de quem chega ao paraíso quando se parte dessa para melhor. O prazer da cerveja gelada desceu de goela adentro matando a condenada da sede que o atormentava desde quando chegou a casa do sisudo do coveiro, com a ordem da justiça, para fazer o transporte dos restos mortais do falecido genitor para um cemitério do Recife. Um sonho da sua mãe Isaura que queria ser enterrada ao lado do seu amado marido. O cabra feio, vigia dos defuntos, nem colocou resistência, foi caminhando entre centenas de túmulos seguido por Henrique, lá encontrou o local coberto de capim, com uma placa velha e carcomida lia-se “Sebastião Cavalcanti da Silva, 1920 a 1976. Saudades eternas” e não dava mais para ler o resto da mensagem, já destruída pelo tempo e abandono da família. Quando o coveiro abriu o caixão, os ossos já tinham se transformado em pó dentro do que sobrara do caixão. Ele saiu e retornou com uma vassoura e um saco de lixo, depois pediu para o Henrique segurar o saco, mantendo-o aberto, enquanto o coveiro juntava cuidadosamente o que restou do genitor do rapaz fazendo um montinho sobre a madeira. Henrique olhava tudo aquilo sem nenhuma expressão, segurando o saco para receber o velho pai e levar para um novo destino.
Com o recém-falecimento da sua mãe, no último carnaval, decidiu cumprir o desejo dela com a ajuda de alguns amigos influentes, afinal, era tudo o que possuía nesse mundo, amigos. O dinheiro que conseguia fazendo bicos aqui e ali, só lhe servia para comer e se divertir um pouco com as raparigas nos bordeis do Pina ou do Centro, ou ainda pra tomar uma chamada de cana de vez em quando. Enquanto bebia o último copo da cerveja, decidiu mudar para uma dose de cachaça, além de mais barato era sua bebida predileta. Cerveja era só para diminuir a
sede inicial, e essa sede nunca acabava no calorento Recife. A cerveja só amainava a vontade de beber, mas o prazer de degustar uma cana de cabeça durava às vezes até o dia seguinte.
Na fase do lobo, dos seus quarenta anos, Henrique ainda se sentia bem jovem e como a maioria dos jovens sentia-se eterno. Ele era um grande sonhador, cabelos negros, moreno claro de olhos verdes, dizia que era herança do lado holandês da família. Naquele período estava prestando serviços para um amigo vereador da cidade de Recife na própria prefeitura, era seu bico atual. Galanteador, bonito e bem falante, já se comentava nos cafés da cidade do seu caso com a D. Carminha esposa do amigo vereador. Enquanto bebericava a quarta dose da cana, pensava como iria se livrar da mulher do amigo que não largava do seu pé, inclusive, deu para aparecer na pensão que Henrique morava, lá em Afogados, e isso poderia se tornar um problema.
D. Márcia olhou para Henrique e para o relógio impaciente, já fazia quatro horas que ele bebia na companhia do saco de lixo negro sobre o banco. No início, a cada gole oferecia outro para o saco, aguçando cada vez mais a curiosidade da magra proprietária, que passava a mão gordurosa nos negros cabelos alisados com firmeza pelo creme alisante Henê Maru e tratado com creme de tutano e babosa caseira, e depois enxugava o suor dos cabelos com a gordura do fogão no ensebado avental de chita vermelha com desenhos de enormes girassóis cobrindo um vestido negro de alças e na altura dos joelhos, um luto fechado que já durava dez anos desde que o pai do seu filho, o cabo Leocádio da honrada polícia montada de Olinda, morreu vítima de cirrose hepática.
A calorenta tarde já estava indo embora, e em uns quarenta minutos aproximadamente teria que fechar o estabelecimento. A curiosidade falava alto para perguntar ao seu cliente contumaz o que ele levava naquele saco negro e o porquê que o reverenciava pela vigésima ou nonagésima vez sempre que levava o copo de cachaça aos lábios, mas a vergonha a impedia, sabia que o Henrique possuía uma língua bem ferina quando incomodado. Deixa pra lá, pensou D. Marcia, vai ver que não é nada importante e só quer chamar a atenção.
- D. Márcia! (falou o cliente com a voz pastosa) sei que estás querendo me mandar embora, sei que já está na hora e com saudades não me nego partir.
- Que que é isso, seu Henrique. Parece até canção do Bartô Galeno, o senhor é de casa e ficamos até quando o vigia vier avisar, acho que temos ainda uns trinta minutos de lambuja, quer mais uma dose?
- Sim, quero. E quero também um copo de caldinho de feijão preto, ainda tem?
- Vixe homem, o caldo de feijão preto acabou indagorinha, mas tem fava e um pouco de guisado de bode, se quiser, boto uma farinhazinha, uma pimentinha malagueta e fica de primeira.
-Traz então a gororoba, bela viuvinha do meu coração, com todo respeito; eu vou aqui ao mictório e volto já pra tomar a derradeira, e depois, sigo o meu destino.
E veio a derradeira, depois a expulsadeira, a do garçom, do adeus geral, a pé na bunda e nada dele arredar pé do lugar, comeu o guisado de bode com a fava, seguido de dezenas de arrotos, acompanhados de xingamentos ao prefeito, ao governador, ao presidente da república e só parou porque o senhor Acrísio, o vigia do mercado, chegou balançando as chaves e ficou olhando de esgueira para ele e para a proprietária, essa já havia trocado de roupa e se encontrava na ponta do balcão com uma garrafa de cana praticamente vazia em mãos.
- D. Márcia, hora de fechar o barraco! Falou o vigia com firmeza. Que diabo que tem bebo que se despede quinhentas vezes e não vai embora. Pensou o vigia.
-Tudo bem, seu Acrísio, leve o Henrique até a saída que eu saio já com meu filho Edvaldo, ele tá enxugando a louça pra num dar barata, me dê só cinco minutos.
- Tudo bem. Vamos, seu Henrique, outro dia o senhor continua sua festa.
- Vamos sim, amigo, e obrigado querida Márcia, a mais bela viúva da Veneza brasileira, a rainha do maracatu, muito obrigado pelo carinho que tratas esse nobre pernambucano sem futuro, está tudo nos conformes, agora, vou seguir minha noite, pois ninguém é de ferro. Vou dar uma esticada lá no Recife Antigo e dar uma passadinha lá no Roger.
- Homi, vá pra casa, seu Henrique! O senhor já tá que tá!
- Como diria meu amigo Zé da Flauta, vou tomando até a última concha, vou tomar umas no Pina de Copacabana, ouvir radiola de ficha e tomar uma sopa com o meu amigo Roger.
Foi saindo e cantando “cadê Roger? cadê Roger?” D. Marcia persignou-se e acompanhou com o olhar seu cliente sair pela única porta aberta do mercado, em sua mente pedia a Jesus e a Oxum, como toda católica com um pé na umbanda e os dois cotovelos no candomblé, que cuidasse do cliente até sua casa. Deu até vontade de tomar essa famosa sopa do Roger, mas iria deixar pra outro dia, precisava chegar cedo em casa porque ainda tinha uns bordados para fazer no vestido da sua calunga, já o seu vestido de dama do Paço já estava prontinho, e não via a hora de sair desfilando na sua “Nação Maracatu do Baque Virado África Mãe” e se apresentar na noite dos tambores silenciosos.
- Aff, que glória! Pensou D. Marcia, que ficava o ano inteiro pensando nessa noite, desde a concentração na rua estreita do Rosário.
Tudo era incrível, sobretudo o batuque e sua coreografia chegando ao palanque armado em frente a Igreja da Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, era uma cadência inconfundível, tudo era lindo e perfeito. Quando as batidas do sino da igrejinha anunciavam a meia-noite, silenciavam os tambores, e tudo se transforma numa silenciosa prece coletiva saudando os ancestrais africanos, todas as nações se unem em uma única energia de luz
naquela escuridão, ninguém se move, todos firmam o pensamento em um mundo melhor, sem dor, mais alegria, agradecendo as raízes, saudando os orixás. Até o momento em que silêncio é quebrado ao som de um batuque e um canto de celebração, e isso faz que uma energética força penetre o seu corpo inteiro. Milhares de batuques saúdam o momento, toda a eletricidade espiritual emana da superlotada ruela. A força e o poder de todas as nações reunidas, resultavam numa emoção coletiva aguardada por milhares de afros descendentes e adeptos dos tambores africanos que se concentravam na estreita Rua do Rosário, e essa era a força aguardada por D. Márcia durante todo o ano.
- Salve minha Santa Senhora do Rosário, salve Ogun meu pai de cabeça, salve Nossa Senhora da Guia, salve Oxalá, Iemanjá e Xangô Menino, Salve Jesus e Maria Santíssima! Foi assim com toda a sua fé, numa mixórdia típica do sincretismo brasileiro, que D. Márcia tirou o pensamento da religiosidade e voltou-se para chamar seu filho Edvaldo para irem para casa. Lá fora, uma lua cheia e dourada já espalhava sua luz sobre os fiteiros, prédios, pontes e os notívagos habituais do velho Recife.
No dia seguinte, mal abriram as portas do seu quiosque e lá estava o Henrique meio esbaforido à sua espera.
- Bom dia, seu Henrique. Já de pé em plena oito horas da manhã!
- Bom dia, D. Márcia, a senhora viu um saco que esqueci ontem aqui no seu recinto?
- Vi sim, seu Henrique, não era pó de osso?
- Era sim, D. Marcia, cadê o saco? Nem dormi direito pensando nele.
- Oxi, seu menino! E aquele pó de osso vale ouro, é? (falou rindo enquanto passava uma flanela no balcão).
- A senhora nem imagina quanto... mas, cadê o saco?
- Ah, meu amigo, o meu filho Edvaldo é quem cuida da horta que tenho nos fundos do nosso quintal lá em Paulista, o senhor sabe, né? Tudo aqui é caseiro e natural, as verduras, as galinhas, os bodes, até a fava! Esse é o nosso segredinho (falava cheia de orgulho).
- Sei disso D. Marcia, mas o meu saco, cadê ele?
- Meu menino disse que pó de osso é o melhor estrume do mundo, muito melhor do que bosta de gado ou adubo químico. Hoje, bem cedinho, ele espalhou o pó que estava dentro do seu saco de lixo todinho na nossa horta, mas não se preocupe, seu Henrique, se quiser, eu mando ele ir lá no quiosque da Etienne e pegar outro pó de osso para o senhor, já que faz tanta questão, (fazendo um muxoxo). Lá, ela trabalha com coisas de jardinagem, espere só um pouquinho que eu vou mandar o Edvaldo buscar. Disse isso caminhando até a cozinha do quiosque enquanto colocava o avental.
- Edvaldo, menino, vem já aqui!
- Eita lasqueira, e agora, meu São Cipriano! Chame ele não, D. Marcia! Escuta aqui, tá tudo bem. Me traga uma branquinha por favor pra aguentar esse golpe. Falou Henrique coçando a cabeça com preocupação.
- Então, tá! (gritou em direção ao fundo do estabelecimento) - Pode deixar, Edvaldo, num carece de vir aqui, não. Oxente, seu menino, já vai começar os trabalhos? (pegou uma garrafa de cachaça de cabeça, tira a rolha, derrama uma dose no chão, murmura algo e serve outra dose ao Henrique).
- D. Marcia, obrigado pela branquinha, mas queria lhe pedir um grande favor.
- Fala logo, homem de Deus!
- Eu gostaria que todo dia primeiro de setembro a senhora acendesse uma vela de sete dias na sua horta, de preferência protegida dos ventos.
- Vixe, seu menino, que arrumação é essa agora?
- É que é o dia do aniversário do meu falecido pai que a senhora teve a bem aventurada ação de espalhar o pó dos ossos do infeliz na sua horta.
- Minha Nossa Senhora do Desterro, diga isso não, seu Henrique! Ai, protegei-me Omolu! Vou ter um troço. Edvaldooo! (D.Márcia grita pelo filho com a mão no peito e desmaia por trás do balcão.)
- O que houve? Edvaldo entra esbaforido, corre até a sua mãe e pergunta ao Henrique.
- Foram os ossos do papai. Leva a dose de cana aos lábios, toma tudo de um gole só e coloca uma nota de dois reais sob o copo vazio em cima do balcão, complementando:
- Fique com o troco! Levanta do banco e sai.


Fim


JUNIOR DALBERTO, pseudônimo de Alberto Barros da Rocha Junior, é escritor, dramaturgo, diretor teatral e poeta potiguar. Autor e encenador dos textos infantis: "Um Robô no Mundo da Fantasia" no Rio de Janeiro, "Pinóquio e o Circo" e "A Trilha da Caveira que Ri" em Natal/RN. Escreveu e produziu o espetáculo infantil Titina e a Fada dos Sonhos e o espetáculo adulto A Barca de Caronte. Dirigiu os espetáculos de sua autoria: O Velório da Marquesa Di Fátimo, A Última Gota de Absinto, Borderline e Ventre de Ostra. É premiado com quatro Troféus Evoé - Festival de Teatro Exu/Pernambuco em 2015 por "Borderline". Indicado pelo texto Borderline para a premiação Botequim das Artes no Rio de Janeiro em 2015. Premiado pelo espetáculo Ventre de Ostra como melhor Espetáculo Potiguar de Teatro de 2016 – Troféu Cultura. Publicou “O Teatro Mágico de Junior Dalberto - Coletânea de textos Infantis", "O Teatro Mágico de Junior Dalberto – Coletânea de textos adultos", o livro romance realismo fantástico “Pipa Voada sobre Brancas Dunas” (3ª edição atualizada, revisada- 2106) o livro de contos "Cangaço e o Carcará Sanguinolento" (Prêmio Troféu Cultura 2014 – Destaque Literário Potiguar), o livro de poemas "Leveza Infinita" e O livro de conto "Reféns nos Andes". Dirigiu artisticamente a premiação de música potiguar "Hangar-2103, Hangar-2014, Hangar –2105 e hangar 2016". Representou a cidade de Natal no III Encontro de Escritores da Língua portuguesa – E.E.L.P. Fez a direção cênica da inauguração do Cine Teatro Parnamirim/RN. Integra a Caravana Literária Potiguar.
Saiba mais em: www.junior-dalberto.blogspot.com
jrdalberto2010@hotmail.com
@juniordalbertoreal
84-991299907

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

O filme A VILA (resenha e link) - Cleudivan Araújo


Título do Filme: A Vila
Título original: The Village
Diretor: M. Night Shyamalan
Gênero: Suspense
Duração: 108 Min.
Ano: 2004
Atores Principais: Joaquin Phoenix, Bryce
Dallas Howard, William Hurt, Sigourney Weaver,
Adrien Brody, Judy Greer, Jayne Atkinson,
Michael Pitt, Cherry Jones, Celia Weston.

Trilha Sonora: James Newton Howard
Roteiro: M. Night Shyamalan  


ENREDO DO FILME

O filme é ambientado em uma pacata vila norte-americana do séc. XIX, circundada por uma imensa floresta, munida de guaritas, longe de qualquer contato com o mundo exterior. Na Vila, as leis são determinadas pelo conselho de anciões, que são parte dos fundadores daquele lugar. É fomentada por esse conselho, uma lenda de que criaturas sobrenaturais habitam a floresta, sendo esta a sua área, e que não deverá ser invadida em hipótese alguma, sob pena deles, denominados de “aqueles que não mencionamos o nome”, virem invadir e destruir a Vila e exterminar seus moradores.
Como em todas as comunidades, problemas não tardam a acontecer, então, o jovem Lucius (
Joaquin Phoenix) questiona os anciões sobre o porquê do isolamento total da Vila, e pede permissão para atravessar a floresta, com o intuito de buscar soluções para situações práticas. Certo dia, o rapaz resolve ultrapassar o território da Vila e adentra um pouco na floresta. A partir desse momento inicia-se uma cadeia de acontecimentos estranhos, como a aparição de animais mortos e até mesmo a presença das criaturas sobrenaturais no interior da comunidade.
Logo em seguida, Lucius é ferido por Noah Percy (
Adrien Brody), e a única saída para salvar sua vida é a busca de ajuda externa. Para esta tarefa, se prontifica Ivy Walker (Bryce Dallas Howard), uma
jovem cega que sente por Lucius um amor inimaginável. Por tomar tamanha decisão, ela faz descobertas relevantes que podem modificar a rotina de todos os moradores da Vila para sempre.
Apesar de não enxergar, a moça é munida de uma determinação imensa, e sai floresta adentro 
apesar do perigo iminente, em busca da salvação para Lucius.

O QUE PODEMOS APRENDER COM ESTE FILME?

O filme “A Vila” pode nos deixar diversos ensinamentos, por exemplo: a superação da incerteza, que será concretizada pela busca da verdade, e isso nós poderemos visualizar nos personagens Lucius e Ivy Walker. A verdade é algo íntimo de cada ser humano, às vezes o que é considerado verdade para determinado indivíduo nem sempre significa o mesmo para outros. Dessa forma, podemos afirmar que vivemos em um mundo permeado de “verdades”.
Atualmente, vivemos em uma sociedade que louva e acredita, nos mais diversos meios de
comunicações em massa, dentre eles, jornais, rádios, emissoras de televisão e internet, que nos sufocam diariamente com uma enxurrada de informações, nem sempre confiáveis. Assim como o povo do vilarejo retratado no filme, acreditamos nas verdades transmitidas pelos telejornais, repórteres, líderes religiosos, políticos etc, dentre tantos outros.
Então, o maior ensinamento que podemos obter ao assistir e analisar o filme “A Vila” é saber que as informações podem ser e, na realidade, são constantemente manipuladas, tornando-se verdades em nosso subconsciente. Assim poderemos chegar à conclusão de que todo ser humano deve ir em busca de sua verdade, desconfiando do que nos é apresentado como verdade absoluta. Neste sentido, deveremos formular indagações, exigir explicações e liberdade para expressarmos o nosso pensamento.
“A Vila”, de M. Night Shyamalan, criticado por muitos, pode até passar despercebido por olhares menos atentos, que o rotulam como sendo mais um filme de suspense norte-americano, no entanto, no meu entender é um filme perfeito para ser utilizado em sala de aula, pois, se o analisarmos com maior atenção, poderemos perceber nele uma diversidade de conteúdos a serem abordados, tais como: a manipulação de informações através dos meios de comunicação; o estudo de cores existentes no filme, como o vermelho e o amarelo; a presença dos efeitos sonoros e a ausência deles, que coordenam as ações de algumas cenas; a verdade; o medo; dentre tantos outros. Fica a dica!




Cleudivan Jânio



Veja o filme A VILA:



quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Não há quem substitua O amor da mãe da gente. - Hélio Crisanto


Só uma mãe se dedica,
Dando a vida pelos filhos.
Sem temer os empecilhos,
Por ele se sacrifica.
Seu amor se multiplica,
Se um filho está doente.
Jamais fica indiferente,
É grande a bondade sua;
Não há quem substitua
O amor da mãe da gente.

Se um filho sai pra brincar,
Na companhia de um amigo,
Pensa logo no perigo,
E o aconselha a ficar.
Jamais pensa em confiar,
Mesmo que seja parente.
Desconfiada e temente,
Vai procurá-lo na rua;
Não há quem substitua
O amor da mãe da gente.

Seu abraço verdadeiro,
Tem o carinho mais puro,
Deixando a gente seguro,
Nos tomando por inteiro.
Não há valor em dinheiro,
Que supere esse presente,
Nem calor mais envolvente
Que a nossa alma usufrua;
Não há quem substitua
O amor da mãe da gente.

Carrega sempre a doçura,
O coração sempre amável,
Numa fonte inesgotável
De amor e de ternura.
Se mostra sempre madura,
Se um filho é confidente.
Se aconselha é prudente,
Não se zanga e nem se amua;
Não há quem substitua
O amor da mãe da gente.
(Hélio Crisanto)

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

DIÁLOGO POÉTICO SOBRE O TEMPO Gilberto Cardoso e Zé Ferreira

Zé Ferreira Gilberto Cardoso

Gilberto Cardoso é poeta de verve aguçada e, diria, até belicosa... (o que tem me rendido boas reflexões e um tanto de aprendizado) vejam o que ele extraiu do meu status de WhatsApp: - José Ferreira Santos
G.C: Zé Ferreira, consciente, Sabe que a qualquer hora Irá findar a jornada Para o além vai embora "Só tenho o hoje" diz ele Pode ser engano dele Talvez só tenha o agora. Z.F: Meu caro amigo Gilberto Uma coisa lhe asseguro Não tenho medo da morte Ou de um fim prematuro Meu "agora" é afirmado Porque não vivo o passado E nem toco no futuro. G.C: Mas o que é o agora Em um sentido profundo? É o instante presente Produtivo ou infecundo Vivido com ou sem arte Dentro da milésima parte De um passageiro segundo Z.F: Pra mim, meu nobre poeta, O "agora" é consciência, É saber que cada instante Dessa fugaz existência Não deve ser relegado Mas vivido, aproveitado Com extrema competência. G.C: O tempo vem feito rio E prossegue na corrente Não podemos represá-lo A perda é permanente Nesta existência frustrada Talvez não tenhamos nada Nem o instante presente. Z.F: frustra-se na existência Quem vive a passividade Ou quem inverte valores Da própria identidade Um, deixa a vida passar O outro passa a andar Fora da realidade. G.C: A frustração acontece, devido a impermanência das coisas que mais amamos pois tudo perde a essência tudo finda empoeirado nos depósitos do passado e vira reminiscência. Z.F. "As coisas que mais amamos", Se esse amor for verdade, Em nós, transcendem o tempo, A materialidade, Ficam vivas na memória, No curso da nossa história Ganham a perenidade. G.C: Tentamos nos iludir eternizar cada instante mas não podemos fugir da miséria circundante há motivos pra chorar e não pra comemorar num planeta agonizante. Z.F. Um pensamento passivo Amarra os pés da ação Chorar leite derramado Adianta nada não Se há vida, há esperança E a chave da mudança Está hoje em nossa mão. G.C: O tempo é valioso mas é um frágil tesouro é como um balão de festa que acaba num estouro rumo às horas finais somos como animais que seguem pro matadouro. Z.F. Tempo é ruim pra quem perde, Pra quem na lida soçobra Mas pra quem é diligente E que nele se desdobra, Encontra um bom aliado E fica imortalizado Através de cada obra. G.C O fato é que nada temos Pois tudo nos é tirado Gastar tempo lamentando O tempo desperdiçado Pode ser fonte de tédio Pois o que não tem remédio Já está remediado. Z.F É um fato consumado: Todo bem material, É parte subtraída Na caminhada final Daqui não se leva nada, Transcende dessa morada A parte espiritual. G.C Enquanto a gente corre Ou se arrasta o tempo voa Desfrutemos cada instante
Que rapidamente escoa Sem culpa e ansiedade Buscando a felicidade Pouca ou muita, a vida é boa. Z.F Por isso, no meu Status de WhatsApp postei a frase "Só tenho o hoje" E esta em mim fixei Para que ao fim do dia Eu veja com alegria Que nada desperdicei.

G.C.
Observando gatinhos
e cachorrinhos brincando
eles se mordem, se atacam
parecem que estão brigando
nossa belicosidade
teve igual finalidade:
não estávamos arengando.