APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


sábado, 27 de maio de 2017

AMANHECER - Sabrina Dorico

AMANHECER

No amanhecer claro e circunspecto, busco paz e felicidade .
Parte de mim , explode numa profusão de versos .
A natureza ladeia o meu ser , que a cada instante insiste em viver.
A outra parte,busca roteiros e oportunidades: 
De viver e amar
De acreditar e buscar
De sonhar e realizar.

Sabrina Dorico

Currais Novos, 27/05/2017




Poeta Antônio Francisco - Xilogravura e poemas


 Xilogravura de J. Campos - e-mail: Jefferson_lima_@hotmail.com - Fone: 98166-9991 (https://www.facebook.com/jefferson.lima.963)

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PLAYLIST DE POEMAS DECLAMADOS


A Casa que a Fome Mora
Eu de tanto ouvir falar
Dos danos que a fome faz,
Um dia eu sai atrás
Da casa que ela mora.
Passei mais de uma hora
Rodando numa favela
Por gueto, beco e viela,
Mas voltei desanimado,
Aborrecido e cansado.
Sem ter visto o rosto dela.


Vi a cara da miséria
Zombando da humildade,
Vi a mão da caridade
Num gesto de um mendigo
Que dividiu o abrigo,
A cama e o travesseiro,
Com um velho companheiro
Que estava desempregado,
Vi da fome o resultado,
Mas dela nem o roteiro.


Vi o orgulho ferido
Nos braços da ilusão
Vi pedaços de perdão
Pelos iníquos quebrados,
Vi sonhos despedaçados
Partidos antes da hora,
Vi o amor indo embora,
Vi o tridente da dor,
Mas nem de longe via a cor
Da casa que a fome mora.


Vi num barraco de lona
Um fio de esperança,
Nos olhos de uma criança,
De um pai abandonado,
Primo carnal do pecado,
Irmão dos raios da lua,
Com as costas seminuas
Tatuadas de caliça,
Pedindo um pão de justiça
Do outro lado da rua.


Vi a gula pendurada
No peito da precisão,
Vi a preguiça no chão
Sem ter força de vontade,
Vi o caldo da verdade
Fervendo numa panela
Dizendo: aqui ninguém come!
Ouvi os gritos da fome,
Mas não vi a boca dela.


Passei a noite acordado
Sem saber o que fazer,
Louco, louco pra saber
Onde a fome residia
E por que naquele dia
Ela não foi na favela
E qual o segredo dela,
Quando queria pisava,
Amolecia e Matava
E ninguém matava ela?


No outro dia eu saio
De novo a procura dela,
Mas não naquela favela,
Fui procurar num sobrado
Que tinha do outro lado
Onde morava um sultão.
Quando eu pulei o portão
Eu vi a fome deitada
Em uma rede estirada
No alpendre da mansão.


Eu pensava que a fome
Fosse magricela e feia,
Mas era uma sereia
De corpo espetacular
E quem iria culpar
Aquela linda princesa
De tirar o pão da mesa
Dos subúrbios da cidade
Ou pisar sem piedade
Numa criança indefesa?


Engoli três vezes nada
E perguntei o seu nome
Respondeu-me: sou a fome
Que assola a humanidade,
Ataco vila e cidade,
Deixo o campo moribundo,
Eu não descanso um segundo
Atrofiando e matando,
Me escondendo e zombando
Dos governantes do mundo.


Me alimento das obras
Que são superfaturadas,
Das verbas que são guiadas
Pro bolsos dos marajás
E me escondo por trás
Da fumaça do canhão,
Dos supérfluos da mansão,
Da soma dos desperdícios,
Da queima dos artifícios
Que cega a população.


Tenho pavor da justiça
E medo da igualdade,
Me banho na vaidade
Da modelo desnutrida
Da renda mal dividida
Na mão do cheque sem fundo,
Sou pesadelo profundo
Do sonho do bóia fria
E almoço todo dia
Nos cinco estrelas do mundo.


Se vocês continuarem
Me caçando nas favelas,
Nos lamaçais das vielas,
Nunca vão me encontrar,
Eu vou continuar
Usando o terno Xadrez,
Metendo a bola da vez,
Atrofiando e matando,
Me escondendo e zombando
Da Burrice de vocês.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Xilogravura de Xexéu e poema "O beija-flor mensageiro"


 Xilógrafo J. Campos - e-mail: Jefferson_lima_@hotmail.com - Fone: 98166-9991
 (https://www.facebook.com/jefferson.lima.963)


O beija-flor  mensageiro (Autor: Xexéu)

Agradeço ao  criador
A importante surpresa
De  um  simples  beija-flor
Do  jardim  da  natureza
Que  astucioso vem
Trazer  lembrança  de  alguém
Nessa  casinha  singela
Nas  horas  de  solidade
Me vê  curtindo saudade
De  quem  morou dentro dela.
(...)
Ele  é  inofensivo
Não prejudica  ninguém
Super comunicativo
Sem  gastar  nem  um  vintém
Pois  abastece  o motor
Sugando o néctar  da  flor
Sobre  o  jardim  rutilando
Voa  levando  a  mensagem
Só volta  dessa  viagem
Depois  que  faz  o que  eu mando.
(...)
Se  não  fosse  a  poesia
Que  eu vejo no  beija-flor
O que  era  que  seria
De  um  poeta  sonhador
Fora  da  realidade
Ressentido de  saudade
Pesaroso abandonado
Tendo no peito uma  lança
E  o beija-flor  por  lembrança
Das  emoções  do passado.




domingo, 21 de maio de 2017

Expressão - PRIMEIRO LUGAR NO FESTIVAL FORRÓ DE VERDADE


No Festival Forró de Verdade  reencontrei meu ex-professor de Latim, Mário Lúcio. Do porão da mente veio-me a imagem de estudantes americanos retirando tomates de suas lancheiras - algo que ele nos contou num passado distante -  e a expressão "Aquila non capit muscas". Quando assistia suas aulas, não tinha conhecimento desse lado artístico nem de seu apego à cultura popular. Pareceu-me física e mentalmente bem e ainda fazendo jus ao sentido do nome Lúcio.


Tive dupla razão para abraçá-lo. Ele estava no evento não como mosca em torno do mel das melodias ali cantadas, e sim como águia: inscrevera uma música no festival e fora contemplado com o primeiríssimo lugar! Vejam a letra e deliciem-se com o clipe:

EXPRESSÃO

Está no ar, está no chão,
Está na alma dessa gente queimada do sol,
Do Nordeste essa rica expressão
Está no ar, está no chão,
No pulsar do coração desse povo do norte,
É um sertanejo forte, o baião

Está nas patas do cavalo do vaqueiro
Está na enxada do homem que cava o chão 
Está no grito sonoroso do tropeiro 
Na caminhada do romeiro em oração
Na folha verde do valente juazeiro 
No peneirado das asas do gavião.
No ronco forte que alegra o sertão inteiro,
alvissareiro do corisco e do trovão

Está no ar, está no chão, etc...

Está na rima do verso do violeiro
Na fé do povo que acompanha a procissão 
No aboiar da garganta do boiadeiro
Na labareda da fogueira de São João
Está no chocalho do gado na capoeira
E na carreira dos vaqueiros campeões
No remelexo da morena forrozeira,
Toda faceira machucando corações




quarta-feira, 17 de maio de 2017

MORTE E POEMA DE JOSÉ IVALTER - Por Hélio Crisanto




Faleceu em Natal – RN, em 15 de maio de 2017, um dos grandes ícones da literatura Santa-Cruzense. José Ivalter Ferreira. Poeta, Advogado, ex Vereador e vice-prefeito da cidade de Santa Cruz, RN. Foi membro da ASPE/RN e da SPVA/RN. Participou de várias antologias na nossa cidade e em todo o pais. Vencedor do 1º concurso de Poesia viva do Trairi no ano de 1998, e vencedor de dois concursos internacionais nos anos de 1999 e 2000. Um vate de inspiração aguçada, e um declamador por excelência se cala e deixa órfã a nossa poesia. Tive a honra de ouvi-lo declamar com eloquência por várias vezes este poema a seguir:

QUANDO EU PARTIR (José Ivalter Ferreira)

Quando eu partir para nunca mais voltar,
Quero que todos possam constatar,
O quanto nesta vida, eu fui feliz...
Gostei da música, da mulher, das flores,
Adormeci por sobre mil amores
E tive no amor o que mais quis.

Quando eu partir pra sempre, desta vida,
Quero encontrar, apenas, por guarida,
Um gineceu em meio aos roseirais...
Ao lado das mulheres mais formosas,
Quero dormir sobre um colchão de Rosas,
Na incerteza de acordar, jamais.

Quando eu partir daqui, deste torrão,
Quero que ponham sobre o meu caixão,
Os versos que escrevi na mocidade...
Versos que são partículas de emoção,
Dispersos dentre as cinzas da ilusão,
No imenso palheiro da saudade.


sábado, 13 de maio de 2017

Pardal - Jordan Cousin


Pardal

Eles vão pra cá e pra lá
Numa mistura de raça e cheiro
Mil pensamentos a me atormentar
Ao Brasil penso em ir ligeiro.

Numa viagem que me seduz
E com certeza sei o porquê
Chego ao Trairi, Santa Cruz
Lá eu corro buscando você.

Sigo pela praça, rumo ao Paraíso
Ando, corro, não me canso
Quando de longe avisto um sorriso
Que rápido me cura do banzo.

Teus olhos verdes que nem esmeralda
Tão lindos qual rara flor
Que em tua inocente balda
Me faz sentir o amor.

Abraços, calor, lágrima e suor
Quando sinto teu carinho
Avisem que aqui estou
Pelo canto de um passarinho.



SONETO DE MINHA MÃE - Gilberto Cardoso dos Santos


Só um dia do ano é muito pouco Pra quem cuida da gente o ano inteiro. - Hélio Crisanto


Todo filho sensato deveria
Cultuar sua mãe sem ter medida.
Respeitá-la demais por toda a vida,
Dando a ela conforto e alegria.
Mas alguns quando passa desse dia,
Ganha o mundo que nem um forasteiro.
Quando chega carrega o seu dinheiro,
Vira as costas pra mãe, se faz de mouco;
Só um dia do ano é muito pouco
Pra quem cuida da gente o ano inteiro.

(Hélio Crisanto)

sábado, 6 de maio de 2017

Porque só dizer agora, Se quem foi não pode ouvir? - Adriano Bezerra


Meu Deus eu não acredito! Era uma grande pessoa, Um ser humano bendito, Nunca vi gente tão boa! Sempre foi muito decente Era como meu parente Igual, duvido existir! Pra mim foi antes da hora. Porque só dizer agora, Se quem foi não pode ouvir? Eu sempre lhe admirei, Tinha um grande coração! Nas vezes que precisei Sempre me estendeu a mão. Um exemplo de doçura; De alma simples e pura... Porque Deus, teve que ir? Os bons cedo vão embora. Porque só dizer agora, Se quem foi não pode ouvir? Não creio de jeito algum, Que esse artista partiu! Sou seu fã número um Desde quando ele surgiu Foi mesmo um grande talento, Que triste acontecimento! Quem vai substituir​? De dor o meu peito chora! Porque só dizer agora, Se quem foi não pode ouvir? Minha​ mãezinha, Senhor, Tanto que lhe adorava! Meu filhinho, meu amor, Papai que só batalhava! Minha vozinha querida... As jóias da minha vida. Não espere alguém partir Para dizer que lhe adora; Lhe abrace e diga agora, Enquanto pode te ouvir. Adriano Bezerra 05/05/2017

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Mercenária...Justiça brasileira! - Ubirajara da Rocha


A MERCENÁRIA

Vinte e cinco mil apenados;
com suas penas já cumpridas;
esperando um advogado;
para libertar as suas vidas.
Mas, o operador do direito está em falta;
exceto, para gente da classe alta!
Cuja fila, está no outro lado rua;
nessa triste verdade nua;
onde, até ministro advoga;
independentemente da toga;
é o absurdo da nojeira!
O direito foi privatizado.
Mercenária...Justiça brasileira!

Ubirajara da Rocha

TELE VISÃO ASSUSTADORA - Gilberto Cardoso dos Santos


domingo, 30 de abril de 2017

Belchior e a divina (e trágica) comédia humana.



O mais triste da morte de Belchior é o quanto ela é absurda e despropositada, mas ao mesmo tempo  também foi a consequência de fatos absurdos e despropositados. Afinal, estamos falando de um dos maiores cantores e compositores da MPB, criador de clássicos como “Mucuripe”, “Como nossos pais (considerado um verdadeiro hino dos jovens que cresceram nos anos 70)” e “Paralelas”, que interrompeu uma carreira de relevância há 10 anos, bem como o contato com sua família, velhos amigos e seus funcionários, para ingressar numa vida de semiclandestinidade, marcada por domicílios incertos, despesas de hospedagem não-pagas no Brasil e no exterior e, principalmente, recusa em aparecer na mídia. Mas o que desconcerta mesmo é que, por mais estranha que essa situação fosse, muitos fãs do artista sempre reagiram com revolta a qualquer comentário que a pusesse em xeque, dizendo que ele simplesmente queria viver uma vida desapegada, longe dos holofotes e de compromissos que o consumissem, e que o resto seriam exageros por parte de uma imprensa que nunca esteve totalmente de acordo com sua postura independente e crítica às mazelas sociais, e viu nessa postura a oportunidade perfeita para desmoralizá-lo. Chegaram a dizer que  estava simplesmente vivendo suas utopias ao lado de quem realmente se importava com ele.
No entanto, por mais louvável que seja essa lealdade, esse sentimento nunca deve ser tal que os cegue para os desdobramentos e complicações de suas atitudes. Não se pode considerar com naturalidade um homem com mais de trinta anos de carreira e uma vida tanto profissional quanto familiar estabilizadas largar tudo isso de uma hora para outra e não dirigir mais a palavra às suas filhas nem encerrar as pendências que possuía com seu escritório. E muito menos que esse homem, sendo adulto e com condições de se sustentar, viva durante tempo indeterminado sem pagar as despesas que realizou e sendo mantido por outras pessoas, e pior, com um discurso que denunciava uma análise um tanto paranóica da sua vida, em que julgava-se perseguido pela mídia brasileira, conforme o jornalista gaúcho Juremir Machado, que foi procurado por ele, percebeu e relatou num artigo que, como não seria diferente, foi considerado uma traição por admiradores do cantor. E não se trata de uma ficção contada para difamá-lo, e sim de algo comprovado por fontes seguras, como documentos e depoimentos de familiares e pessoas próximas a ele. Esses comportamentos não são característicos de uma pessoa desapegada que quer viver uma vida simples, e sim de alguém em fuga que não parece ter noção dos efeitos que suas ações drásticas terão nas vidas de outros, e o mesmo pode ser dito daqueles que o ajudaram nessa empreitada e poderiam tê-lo despertado para esses efeitos. Viver à margem, especialmente quando se é alguém que tem tanto a oferecer, nunca deve ser considerada uma opção viável, já que sempre ocasiona a perda de algo, tanto que, depois de tanto tempo de distância, suas filhas agora podem revê-lo, só que num caixão. O que ele precisava era de ajuda para não perder a noção da realidade, e, aparentemente, quem estava com ele não se preocupou em fornecê-la.
A melhor lição que se pode tirar dessa história é que, caso alguém perceba comportamentos antissociais em pessoas próximas, é melhor não ignorar isso, e sim tentar descobrir qual o seu problema e fazer tudo o que estiver ao alcance para que ela seja ajudada. Em casos extremos, isso pode fazer a diferença entre viver e morrer. E, principalmente, evitar romantizar situações em que alguém é isolado ou alijado da convivência com os outros, pois isso não ajudará a que elas tenham fim.
Agora não dá mais pra dizer "Volta, Belchior", e sim "Descanse em paz, Belchior". Que você finalmente tenha encontrado a paz que nunca teve neste mundo.


Renan II de Pinheiro e Pereira.

SONETO A BELCHIOR


BELCHIOR (1946 - 2017)


SONETO PARA O DIA NACIONAL DA MULHER - Gilberto Cardoso dos Santos


sexta-feira, 28 de abril de 2017

ESTOU CANSADO - Renan Pinheiro

Estou cansado.
Estou cansado de ver, desde os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, as pessoas deixando-se dominar pelo medo a ponto de ver com simpatia cada vez maior candidatos que pregam o ódio e o ressentimento.
Estou cansado de ver pessoas que, influenciadas por programas sensacionalistas e fundamentalistas, não hesitam em estereotipar, julgar e condenar aqueles de que divergem.

Estou cansado de ver a irracionalidade atingir patamares que nunca imaginei serem possíveis.
Estou cansado de ver qualquer um arvorar-se em especialista em determinado assunto só porque fez um curso via Internet com sabe-se-lá quem, e com base nisso querer ensinar o Pai Nosso ao vigário.
Estou cansado de ver católicos que se consideram tradicionais e devotos, que, como eu (embora minha intenção aqui esteja longe de ser a de me colocar como exemplo), vão sempre à missa, tem amor à Eucaristia e à Nossa Senhora e rezam o terço diariamente, mas não hesitam em ofender padres que são grandes evangelizadores e - pasmem - até o papa se discordam de alguma coisa de que disseram, como se tivessem mais direito de serem chamados de católicos do que eles.
Estou cansado de ver pessoas defendendo o indefensável só porque uma ideologia diz que isso precisa ser feito.
Estou cansado de ver a Internet, apesar dela ter a vantagem de ter tirado o monopólio das comunicações dos grandes grupos, tornar-se palco para os preconceituosos e as pessoas de mente tacanha exporem suas teses repletas de ódio e visão estreita da vida.
Estou cansado de ver gente que não sabe dialogar, e se desafiada reage xingando, denegrindo e ameaçando o oponente.
Estou cansado de ver gente que não me conhece e não sabe do que passo sentir-se no direito de me rotular, conforme o sabor do vento, de "coxinha", "comunista" ou "petista", só porque não concordo com uma ou outra opinião específica dela.
Estou cansado de ver gente que só sabe andar pelos extremos, mesmo sabendo que quem vive desejando o mal aos outros nunca consegue desfrutar plenamente da vida.
Estou cansado de ver gente imatura, incompleta e vazia dominando as redes sociais, páginas de comentários e fóruns de discussão.
Estou cansado de ver que, aparentemente, o que vale hoje não é a pessoa por inteiro, e sim o rótulo que ela representa.
Estou cansado de ver amizades de anos sendo destruídas por causa de políticos que nem sabem que esses ex-amigos existem.
Estou cansado de ver grupos atacando os pecados e crimes dos integrantes de outros grupos e esquecendo ou relativizando seus próprios pecados e crimes.
Estou cansado de ver tanta mesquinharia, maldade e ressentimento em nome de nada.
Estou cansado de muitas coisas, mas como não posso mudar o mundo (até porque se o fizesse talvez eu estivesse sendo tão exasperante quanto aqueles que me cansam), prefiro fazer a minha parte sem maiores angustias, descansar e entregá-lo nas mãos de quem o criou, na esperança de que algum dia eu perceba que ele está menos confuso e difícil.

DIA DA SOGRA (20 de abril)


ESCOTEIROS DO AR (28 de abril) - Gilberto Cardoso dos Santos


quinta-feira, 27 de abril de 2017

O LIVRO DOS LIVROS ( PARTES 1,2,3) - Moacy Cirne


O LIVRO DOS LIVROS (1)


Texto estabelecido por

Fausto Simak da Cunha Azevedo
& Zamagna Borges de Azevedo Bouzon,
com revisão teológica de
Mateus Skrzypczak de Macedo

A origem de tudo

No princípio o Senhor das Alturas criou Caicó e as cidades vizinhas. O rio Seridó estava seco e as trevas cobriam o açude Itans e todo o mundo.

O Senhor das Alturas disse: "Faça-se uma luz da gota serena". E a luz da gota serena se fez. O Senhor das Alturas viu que a luz era boa e Caicó e o mundo se iluminaram, com seus dias e suas noites.

O Senhor das Alturas disse: "Faça-se um firmamento, e se façam a Serra de Mulungu, o açude Gargalheiras, o Poço da Moça, o Poço da Bonita, o Poço de Santana, o sítio Caatinga Grande e a minha Biblioteca de Babel". E assim se fizeram.

E o Senhor das Alturas disse: "Façam-se o sol, a lua, os planetas, a Serra do Doutor, a Serra da Borborema, Natal, Olinda, Martins, Galinhos, Macaíba, Angicos, Santana do Matos, Catolé do Rocha, Recife, Rio de Janeiro, Niterói, São Paulo, Porto Alegre, Ouro Preto, Paris, Lisboa, Luanda e o Fla-Flu". E assim se fez.

E o Senhor das Alturas fez brotar do sertão e das outras terras toda espécie de animais e de árvores com seus frutos atraentes e saborosos: mangas e mangabas, cajus e cajás, pinhas e maçãs, carambolas e maracujás. E o Senhor das Alturas fez mais: criou a canjica, a pamonha, a tapioca, o doce de leite e o pé-de-moleque. E àquele lugar em particular, nas veredas do grande sertão, o Senhor das Alturas deu o nome de Jardim do Seridó. E o Senhor das Alturas gostou do que fez. E o Senhor das Alturas gostou do que por Ele foi criado.

A origem da humanidade

O Senhor das Alturas, sentindo-se depois entediado, formou o Homem da (*) da terra e deu-lhe o nome de Severino. E o Senhor das Alturas vendo que o Homem sentia-se solitário e deprimido resolveu criar uma companheira para ele. E do vento das 5 horas da tarde criou a Mulher e deu-lhe o nome de Raimunda. Ambos estavam nus, o homem e a mulher, mas não se envergonhavam.

E o Senhor das Alturas disse: "Vocês tudo podem, só não podem conhecer como funcionam as leis físicas, matemáticas, filosóficas, literárias e biológicas do Universo; ignorem, pois, a minha Biblioteca". Dito isso, foi descansar, depois de almoçar carne-de-sol com macaxeira, feijão de corda, arroz de leite e manteiga do sertão, com direito a três lapadas da cachaça Samanaú.Severino e Raimunda, vendo que o Senhor das Alturas fora descansar longe dos dois, na Serra de São Bernardo, resolveram, em noite de luar às margens do rio Seridó, se aprofundar em seus contatos físicos, ao som da flauta de Carlos Zens. E viram que era bom. E viram que um e outro podiam se encaixar várias e várias vezes. E viram que era ótimo. E quiseram mais: quiseram conhecer como funcionavam as leis do Universo.

E o Senhor das Alturas, depois de uma soneca que durou mais de 13 anos, não gostou do que viu: Severino, Raimunda e seus dois filhos discutiam as teorias e contrateorias de Platão, Aristóteles, santo Agostinho, Ibn Khaldun, Spinoza, Kant, Marx, Nietzsche, Freud, Einstein, Sartre, Foucault e Chico Doido de Caicó. E outras coisas discutiam. E outras coisas faziam.

E o Senhor das Alturas disse: "Quem domina o conhecimento, domina a essência das coisas. Só eu poderia fazê-lo". E o Senhor das Alturas, raivoso, expulsou-os do Jardim do Seridó, para cultivarem o solo seco do sertão. E o Senhor das Alturas disse: "A partir de hoje não poderão mais consultar a minha Biblioteca de Babel". E o Senhor das Alturas colocou diante do Jardim os seus coronéis do interior, para que o mesmo não fosse invadido pelos sem-terra e sem-moradia, representados por Severino, Raimunda e os dois filhos.



O LIVRO DOS LIVROS
(Parte 2)

Texto estabelecido a partir de manuscritos
que se encontram nas bibliotecas de
Cairo, Londres, Paris, Petrópolis, Caruaru e Caicó

O primeiro assassinato

Expulsos do Jardim do Seridó, Tonho e Mané das Cacimbas, filhos de Severino e Raimunda, igualmente expulsos, conheceram uma jovem e bela mulher, vinda de Guarabira, na Paraíba. E os dois por ela se apaixonaram. E quiseram conhecê-la biblicamente. Mas Expedita - a mulher em questão - só queria chumbregar com um deles. E os dois irmãos se estranharam.


Tonho disse então a Mané das Cacimbas: "Vamos para Boqueirão, em Parelhas. Quero que você veja um jogo do Centenário; essa terra ainda será a terra do futebol". Mas quando se aproximavam do açude, Tonho agrediu o irmão e o matou com uma pexeirada. O Senhor das Alturas, desconfiado, perguntou a Tonho: "Onde está teu irmão Mané das Cacimbas?" E ele respondeu: "Não sei. Acaso sou o pastorador de meu irmão?" "O que fizeste? - perguntou o Senhor das Alturas. - Ouço da terra a voz do sangue de teu irmão, clamando por vingança. Terá sido por causa de Expedita, aquela sirigaita, que você o matou?"


E o Senhor das Alturas condenou-o a passar 6 anos, 6 meses e 6 dias perambulando pelo sertão com os cabras de Lampião, fugindo dos macaco da capital e das onças pintadas da região. Tonho disse ao Senhor das Alturas: "O castigo é grande demais para suportá-lo. Não poderei simplesmente ir para mais longe, para os cafundós da Bahia, oh meu Rei?" O Senhor das Alturas gostou da ideia e disse: "Tudo bem. Quem sabe, um dia você acaba estrelando um filme de Glauber Rocha". Afastando-se da presença do Senhor das Alturas, Tonho foi morar em Vitória da Conquista, e lá conheceu Capitulina, casada com Joaquim Casmurraldo. Tonho e Capitulina se gostaram e fugiram para o interior de Pernambuco.


A humanidade se amplia


O Senhor das Alturas ficou indignado, mas preferiu não interferir ao ver que ela deu à luz a Pedro dos Papagaios. Tonho veio a construir uma cidade e lhe deu o nome de Petrolina, em homenagem a seu filho. Pedro dos Papagaios foi o pai de Mirador, Mirador de Abimael, Abimael de Matutosalém e Matutosalém de Riobaldo.


Riobaldo casou com quatro mulheres; uma se chamava Diadorinha, a segunda Estrela da Manhã, a terceira Iracema, a quarta Dualiba. O nome do irmão de Riobaldo era João Rosa, antepassado de todos os tocadores de rabeca e sanfona. Dualiba teve três filhos: Vaca Véia, artífice de todos os instrumentos de bronze e ferro; Bala Choca, forrozeiro e cantador de feira; e Ojuara, criador da literatura de sacanagem. Diadorinha e Estrela da Manhã abandonaram Riobaldo e preferiram se amigar, como se macho e fêmea fossem.


Severino, que deixara Raimunda, champrou muitas vezes a sua segunda mulher, por Esmeraldina conhecida. Ela deu à luz um filho, a quem chamou Sertão do Cariri. Severino já tinha 69 anos quando o gerou. E viveu mais 24 anos e gerou filhos e filhas, que se deliciavam com a chamegação entre si e com os vizinhos e vizinhas.


Sertão do Cariri tinha 33 anos quando gerou Jorge Fernando. Viveu mais 87 anos e gerou filhos e filhas, que foram povoar a Paraíba, o Ceará, o Piauí e Mossoró. Morreu ao ser atacado e devorado por uma onça pintada das mais brabas.


Jorge Fernando gerou José Bezerrão. Tinha 27 anos, então. Viveu mais 53 anos e gerou filhos e filhas, entre os quais Zé Areia Preta, Zilah Medina, Luís Carlos do Curral Novo, Miriam Celeste, Miguel Ciríaco, Sanderson Fabulário, Menandro Casto, Sandra Sandrix, Paulo de Bartola, Jarbas Angicos, Jenildo dos Pampas, Milton Costa, Alta Solta e Americana Marize de Macedo. Todos se amigaram com homens e mulheres da Paraíba e Pernambuco, e geraram muitos filhos e filhas, que viviam em paz e harmonia, na maior felicidade, no mais doce dos chumbregamentos. Os próprios animais, selvagens e não-selvagens, viviam para procriar.


E o Senhor das Alturas, indiferente, além de chateado com aquela eternidade sem princípio e sem fim, só cubava. E o Senhor das Alturas disse: "Meu espírito, já deu para perceber, não ficará para sempre no Homem, porque ele é apenas carne. E o homem não viverá mais do que 120 anos". Dito isso, foi jogar baralho com seu amigo Luisinho Ciferino.


Os anos se sucederam e o Senhor das Alturas, então induzido pelos fanáticos da Igreja Universal do Reino do Diabo, passou a ver pecado onde pecado não existia, passou a ver maldade onde maldade não existia. E o Senhor das Alturas viu o quanto tinha crescido os contatos carnais entre os seres da terra, seguidores que eram dos primeiros habitantes que tinham lido, ainda em Jardim do Seridó, os livros de sua inestimável Biblioteca de Babel.


E o Senhor das Alturas ficou (*) da vida. E o Senhor das Alturas se fez vingativo. E o Senhor das Alturas se fez cruel. E o Senhor das Alturas se fez terrível.



O LIVRO DOS LIVROS

(3)


Texto estabelecido a partir dos

Manuscritos do Mar Vivo das Arábias Orientais
com supervisão astrológica de Ludovicus Erasmus

A jangada de Mestre Cascudinho

E o Senhor das Alturas se fez impiedoso em sua fúria diabólica. Mas, entre todos os habitantes da terra, havia um que o Senhor das Alturas respeitava e considerava boníssimo: Mestre Cascudinho, morador da Cidade dos Reis, cujas andanças pelo interior do Rio Grande a todos causava admiração. Mestre Cascudinho era homem justo e íntegro. Gerou dois filhos. Ana Mariana Potyguar era o nome da donzela; Luís Fernandes Pedro Velho, o nome do mancebo. Mas a terra estava corrompida diante dos olhos do Senhor das Alturas.

Então o Senhor das Alturas disse a Mestre Cascudinho: "Chegou o fim de toda criatura mortal que existir. A terra está cheia de maldade. Vou destruir a todos com um toró tão grande que vai provocar, nos açudes da região e adjacências, a maior sangria de todos os tempos. Durante 40 dias e 40 noites choverá sem parar. Sangrará o Itans, o Boqueirão sangrará, sangrará o Gargalheiras, o Zangarelhas sangrará, sangrará a Passagem das Traíras, o Açudão de Açu sangrará".

E o Senhor das Alturas disse mais: "Construas uma jangada gigante, a maior possível, e nela abrigues tua família, os insetos do canto de muro de tua casa, o Boi Calemba, o Boi da Cara Preta, a onça Galileu Ziraldino e outros animais da fauna seridoense. E assim foi feito. E assim aconteceu. O toró que caiu, num raio de muitas e muitas léguas, inundou quase todo o Rio Grande e ainda sobrou água para outras terras e outras gentes.

Os mais antigos, os povos que, excluídos da jangada, conseguiram sobreviver, lutando contra a fúria do Senhor das Alturas, ainda se lembravam: as águas se tornaram violentas e aumentaram muito sobre a terra de modo que a grande jangada começou a flutuar na superfície das águas. As águas cresceram tanto sobre a terra que cobriram as montanhas mais altas que estão debaixo do céu.

Depois de mais 40 dias e 40 noites, quando as águas começaram a baixar, a jangada pousou sobre a Serra do Mulungu. Mestre Cascudinho e os outros, no meio de um lamaçal feladaputa, a abandonaram e, unindo-se a homens e mulheres que, aos poucos, começaram a surgir da Paraíba, de Pernambuco e do Ceará, e mesmo das Alagoas Sergipanas, esperavam pela Palavra do Senhor das Alturas.

Então o Senhor das Alturas, espantado porque o número de homens e mulheres era maior do que ele imaginara, mas momentaneamente conformado com a situação, falou a Mestre Cascudinho e aos demais: "Já que muitos sobreviveram, mesmo sem estarem na jangada, saiam, todos vocês, pelos sertões do Seridó, e forniquem bastante, sejam fecundos e se multipliquem sobre a terra". O Senhor das Alturas disse mais: "De minha parte, vou estabelecer minha aliança convosco e com vossa descendência: nenhuma vida animal será novamente exterminada pelas águas de um dilúvio, a não ser pelas bombas, pelos fuzis, pelas metralhadoras e pelas balas perdidas".

E assim Caicó se reergueu, reergue-se Acari, São José se reergueu, reergueu-se Serra Negra, Cruzeta se reergueu, reergueu-se Carnaúba dos Dantas. Currais Novos, também. Também Timbaúba dos Batistas. São Fernando, também. Também Parelhas. Ouro Branco, também. Também São João do Sabugy e Jardim de Piranhas. Só o Jardim do Seridó não fora engolido pelas águas e, com sua Biblioteca de Babel, permanecia praticamente inacessível para os pobres mortais de todas as cores e de todos os credos.

E a humanidade voltou a se espalhar por esse mundão de deus e o diabo na terra em transe, com seus vaqueiros e cantadores, e assim se formaram novos homens, novas mulheres, novas amizades, novas amigações. E a humanidade voltou a se impor: Rosembergue das Amérikas conheceu Carla Brunilda e outras mulheres e de tanto chumbregarem muitos filhos tiveram e muitos filmes fizeram. Chico Antônio do Coco Queimado conheceu Mário dos Andradas e os dois se apaixonaram por Patrícia Gavião, mulher de Oswaldo Pau-Brasil. Sindoval Rodrigo do Grajaú conheceu Rosa Hamburgo e de tanto discutirem as idéias dos livros proibidos da Biblioteca de Babel criaram a Comunidade Arretada do Mundo Novo. Dailor Galo da Madrugada conheceu Civone Completamente Nua e os dois, pássaros errantes, geraram filhos e filhas. Oswaldo Fescenino conheceu Nísia Mata Atlântica e de tanto chamegarem muitos filhos tiveram e muitos livros escreveram. Todos viviam, em média, 69 anos. E todos falavam a mesma língua-mãe: a língua tapuia.