APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


quarta-feira, 21 de junho de 2017

INJUSTIÇA SELETIVA - Gilberto Cardoso dos Santos


quarta-feira, 14 de junho de 2017

UMA TARDE DE SAUDADE (Maciel Souza)


UMA TARDE DE SAUDADE
(Maciel Souza – 06/02/2017)
Acadêmico da vida, surpreendia-me com suas tantas informações, seu discernimento, sua capacidade argumentativa e de interpretação. Quanto a sua personalidade era um misto de afago e intolerância, abraço e repulsa, compreensão e incompreensão, com transparência e lucidez. Honesto, cumpridor dos seus deveres e sem nenhuma surpresa de falsidade. Era terreno em que todos sabiam onde pisavam, com quem estavam lidando. Algumas vezes fui por ele repreendido e vez por outra, acalentado: Você pra mim é como um filho! E havia entre tantos aqueles que me diziam: Expedito gosta muito de você! Amava os filhos, amava os netos e minha neta: Maciel, essa menina foi a melhor coisa na tua vida! Sem esconder que tinha um carinho diferenciado por Fernanda e Davi.
Em nosso primeiro contato eu estava vindo de Santa Cruz para Japi e ele com seu carro quebrado na estrada. Ofereci ajuda que dispensou, agradecido, não sem antes perguntar se eu queria comprar jaca. Sereno na adversidade, desinteressado em explorar a boa vontade alheia e comerciante nato. Isso mesmo: Expedito Pinheiro Gomes, agora com todas as letras e a cara lavada de suor por um sol angustiante, no mormaço do asfalto de quase meio dia, quando lançou assim do imprevisível a tentativa de vender “seu peixe”: Quer comprar jaca? Neste aspecto fazia jus ao significado do seu nome de guerra para as batalhas da vida, Spedito, em italiano, que significa enviado ou rápido e ainda desembaraçado, hábil, diligente; acrescido, ainda, do que me lembrou o seu amigo Fabinho da EMATER, já sentindo a sua ausência: Ele tinha consigo sempre o bom humor!
Dos lamentos de Fabinho, eu deveria também mais vezes ter ido ao sítio para estar com seu Expedito, afinal, receber os amigos era do que mais gostava, sem abrir mão dos afazeres entre uma prosa e outra. Era pra termos dedicado mais do nosso pouco tempo às nossas conversas naquelas tardes, no alpendre daquela casa; tardes que agora se voltam contra nós: “Porque quando a tarde vem é a hora mais aflita, mais negra, mais esquisita, pra quem recorda de alguém”. Otacílio Batista. Verdadeiramente dá pra sentir o quanto era bom chegar em casa e escutar Adriana dizer que seu Expedito trouxe feijão verde! Que seu Expedito trouxe jerimum! Que seu Expedito trouxe acerola! Que seu Expedito disse que domingo o almoço seria lá no sítio! Que Seu Expedito passou e deixou uma jaca... pra mim! Foram tantas as jacas mais saborosas que já comi em toda minha vida, sem nunca ter lhe comprado uma sequer.
Para o almoço no dia de natal fui convidado havia mais de vinte dias: Não me falte! Mas não fui. Mamãe reuniu os seus filhos na mesma data e já com seus setenta e três anos, dois dias depois seria submetida a uma cirurgia. No dia seguinte fui ao sítio pedir desculpas e ouvir dele que perdi a maior festa que já tinha realizado. Esta foi a última vez em que nos vimos e a partir dali contei por ele somente mais quinze dias. Ao despedir-nos me serviu um copo d’agua e saí saciado como todas às vezes quando lá estive, ainda mais porque naquele dia compartilhei problemas de minha vida pessoal, pois é assim que os amigos fazem: “Em todo tempo ama o amigo e na angústia se faz o irmão." Provérbios 17:17.
Seu Expedito que me deu tanto de sua atenção, de seu trabalho, de seu tempo, por último me deu ainda mais de sua água, água símbolo de vida, vida que deve ser celebrada, se por mais que a separação seja dolorida, pois deleitoso é dormir, descansar das fadigas e por último acordar no Senhor, com a promessa de que não mais haverá uma tarde como esta. Refiro-me às tardes que para mim são de saudade.

sábado, 10 de junho de 2017

SOBRE CRIANÇAS - GREGÓRIO DUVIVIER


Crianças

DIRETOR Eu chamei vocês aqui pra falar do Paulinho.
MÃE Fofo.
DIRETOR Ele tá com sérios problemas de aprendizado.
MÃE Deve ser o Déficit de Atenção.
DIRETOR Ele tem DDA?
MÃE Muito. Mas a gente já tá medicando.
PAI Eu não sei se você sabe, mas Einstein tinha DDA.
DIRETOR Mas o problema vai muito além do DDA.
MÃE Ele tá hiperativo?
DIRETOR Bastante.
PAI É a Ritalina.
DIRETOR Ele também toma Ritalina?
MÃE Por causa do DDA.
PAI Não sei se você sabe, mas Steve Jobs tomava Ritalina.
MÃE Deve ser bom porque torna ele bastante participativo.
DIRETOR No recreio. Nas aulas ele costuma dormir.
MÃE Aí é o Rivotril.
PAI Que a gente dá pra rebater a Ritalina.
DIRETOR Ele tá muito agressivo.
MÃE Quer ver ele ficar calminho? Diz que ele vai ficar sem Frontal. Tiro e queda. Fica uma flor.
PAI Tem que saber jogar o jogo dele.
DIRETOR Vocês não estão entendendo. O Paulinho lidera uma gangue que extorque outras crianças em troca de proteção.
MÃE Bom, como você mesmo disse, ele “lidera” uma gangue. Eu vejo claramente que existe aí um talento pra liderança que vocês estão desprezando.
PAI Eu não sei se você sabe mas Picasso, quando criança, liderava uma gangue de extorsão.
MÃE Até que ponto não são os professores que não sabem lidar com a criançada de hoje em dia? Que sabe mais que eles?DIRETOR Neste exato momento, ele tem duas crianças de refém e disse que só vai soltar se a gente conseguir um helicóptero e vinte mil reais.MÃE Isso é a cocaína.
DIRETOR Vocês dão cocaína pra ele?
PAI Ele rouba da mãe.
MÃE Eu uso pra rebater o Rivotril.
PAI Eu não sei se você sabe, mas Freud usava cocaína.




É MENINO


É menino, a cara do pai, a cara da mãe, esse menino vai ser safado, só quer saber das meninas, só brinca com as meninas, nem parece menino, mas é menino, tem pipi de menino, tem que botar ele no futebol, não é possível que ele odeie futebol, todo meninogosta de futebol, ele ainda vai descobrir que gosta, tem que levar ele pro estádio, ele tem é que passar mais tempo com o pai, isso é falta de pai, ele tem é que sair da aba da mãe, eletem é que ir pra uma escola só de meninos, isso é falta de porrada, é impressão minha ou desde que ele entrou na escola de meninos ele tá ainda mais menina, acho que ele passa tempo demais com meninos, daí só quer saber de meninos, deve ser isso, é falta de carinho, é falta de mulher, acho que ele tem que passar mais tempo com as meninas, ele tem é que se apaixonar por uma menina, ele acha que gosta de meninos porque ainda não encontrou a menina certa, se ele só se dá bem com meninas deve ser porque gosta tanto de meninas que não consegue sair de perto delas, já saquei qual é a dele, é muito esperto, finge que é menina pra se aproveitar delas, esses são os piores, também não precisava se vestir de menina, acho que ele tá exagerando, coitado dos pais dele, o que é que eu vou falar pros seus avós, acho que o seu avô se mata, pena que ainda não dá pra mandar pro Exército, tem que botar no escoteiro que dali ele vai direto pro Exército, acho que nem escoteiro vai querer saber dele vestido desse jeito, não acredito que ele quer mudar de nome, isso tem que resolver na terapia, deve ter sido abusado na infância, tá querendo agredir os pais, espera que essa moda passa, hoje em dia a pessoa é obrigada a ser bicha, parece que tem um revólver na cabeça da criançada, é a ditadura gay, tá demorando a passar essa moda, cresceu peito nele ou isso é uma meia, onde foi que os pais erraram, a culpa é da televisão, a culpa é da escola, a culpa é de algum tio que deve ter abusado dele, e não é que ele dá uma mulher bonita, nem parece homem, já mandei meu marido sair de perto dele, desculpa, eu me recuso a chamar ele de ela, eu vi ele crescer, ele tem um negócio debaixo da saia, ele é menino, ele sempre vai ser menino, essas coisas a gente não muda, essas coisas a gente nãomuda, essas coisas não mudam a gente, essas coisas a gente é, a gente é o que a gente for, é menina.



É menina




É menina, que coisa mais fofa, parece com o pai, parece com a mãe, parece um joelho, upa, upa, não chora, isso é choro de fome, isso é choro de sono, isso é choro de chata, choro de menina, igualzinha à mãe, achou, sumiu, achou, não faz pirraça, coitada, tem que deixar chorar, vocês fazem tudo o que ela quer, isso vai crescer mimada, eu queria essa vida pra mim, dormir e mamar, aproveita enquanto ela ainda não engatinha, isso daí quando começa a andar é um inferno, daqui a pouco começa a falar, daí não para mais, ela precisa é de um irmão, foi só falar, olha só quem vai ganhar um irmãozinho, tomara que seja menino pra formar um casal, ela tá até mais quieta depois que ele nasceu, parece que ela cuida dele, esses dois vão ser inseparáveis, ela deve morrer de ciúmes, ele já nasceu falante, menino é outra coisa, desde que ele nasceu parece que ela cresceu, já tá uma menina, quando é que vai pra creche, ela não larga dessa boneca por nada, já podia ser mãe, já sabe escrever o nomezinho, quantos dedos têm aqui, qual é a sua princesa da Disney preferida, quem você prefere, o papai ou a mamãe, quem é o seu namoradinho, quem é o seu príncipe da Disney preferido, já se maquia nessa idade, é apaixonada pelo pai, cadê o Ken, daqui a pouco vira mocinha, eu te peguei no colo, só falta ficar mais alta que eu, finalmente largou a boneca, já tava na hora, agora deve tá pensando besteira, soube que virou mocinha, ganhou corpo, tenho uma dieta boa pra você, a dieta do ovo, a dieta do tipo sanguíneo, a dieta da água gelada, essa barriga só resolve com cinta, que corpão, essa menina é um perigo, vai ter que voltar antes de meia-noite, o seu irmão é diferente, menino é outra coisa, vai pela sombra, não sorri pro porteiro, não sorri pro pedreiro, quem é esse menino, se o seu pai descobrir, ele te mata, esse menino é filho de quem, cuidado que homem não presta, não pode dar confiança, não vai pra casa dele, homem gosta é de mulher difícil, tem que se dar valor, homem é tudo igual, segura esse homem, não fuxica, não mexe nas coisas dele, tem coisa que é melhor a gente não saber, não pergunta demais que ele te abandona, o que os olhos não veem o coração não sente, quando é que vão casar, ele tá te enrolando, morar junto é casar, quando é que vão ter filho, barriga pontuda deve er menina, é menina.




GREGÓRIO DUVIVIER: POEMAS


o meio de todas as coisas


entre o fim do começo e o começo
do fim toda coisa tem uma massa
inerte feito ponte pela qual
passamos distraídos - ou não:
os astecas sentiam chegar o exato
momento do meio da vida - o meio
do meio da vida, o momento em que
o que já vivemos é exatamente
igual ao que ainda não vivemos
- e nesse momento preciso o mais
comum dos astecas sentia uma súbita
e inexplicável vontade de tomar um trem
mas como ainda não o tinham inventado
ele acabava por entristecer-se.
(daí a tristeza, essa vontade de algo
que ainda não inventaram)





a palavra para que antes fazia as pessoas
pararem agora já não tem acento igual
à palavra para que indica que as pessoas
estão indo para algum lugar geralmente
sem parar isso é um sinal dos tempos
o que antes parava agora não para não


felizes são as pessoas nas fotos
de escola da minha avó
que não sabem ainda
que vão ser avós

e isso se tudo der certo
e elas não morrerem antes




no princípio era o verbo
uma vaga voz sem dono
vagando pela via láctea.

depois veio o sujeito
e junto com ele todos
os erros de concordância.






unha e carne


eram como unha e carne os dois

e como unha e carne partiram-se
em metades injuntáveis ambos
sob o alicate inox e ela
repousa no ladrilho, âmbar:
lua minguante sobre o bidê. 







sobre a exaustão das retinas


ja não me diz nada um por do sol em cancun
e um coqueiro em alto-mar já vagou por protetores
de tela demais para me causar qualquer sensação
de bem-estar; os casais parisienses que habitam
calendários já não me dão sequer vontade
de ir a paris assim como não me comovem
mais as crianças de sebastião salgado nem
a menina que foge do ataque do napalm
e que em breve estampará cangas e biquínis;
as imagens estão gastas e não há nenhuma
que erga pontes como a palavra que.
  





Soneto para construir janelas


         para Paulo Henriques Brítto


Erguer antes de tudo uma parede -
a parede no caso é importantíssima,
pois as janelas só existem sobre
paredes, as janelas sobre nada


são também nada e não são sequer vistas.
Em seguida, quebrá-la até fazer
nela um grande buraco, não maior
que a parede, pois precisamos vê-la,


nem menor que seus braços - as janelas
sobre as quais não se pode debruçar
não são janelas, são buracos. Pronto.


Ou quase: agora basta construir
um mundo do outro lado da parede,
para que possas vê-lo, emoldurado.






posto nove e meio
açaí açaí — você conhece o waldo — olha o mate — waldo que waldo — é o melhor musse do rio
de janeiro — agora joga um spray nas minhas costas — conheço um waldo que morreu —
meumusse é o melhor — o waldo não morreu quem morreu foi o walter — foi o waldo — empada
praiana — foi o walter — sabe que — açaí — no fundo — açaí — eu acho que o nome dele era —
olha — waldo mesmo — o mate — porra tu — guaraplus — tacou spray — guaraplus — no meu
olho — o waldo — mate — ele mesmo — então, morreu — olha o mate — para morrer, meu amigo
— mate — basta estar vivo.





Receita para um dálmata


(ou: Soneto branco com bolinhas pretas)




Pegue um papel, ou uma parede, ou algo

que seja quase branco e bem vazio.

Amasse-o até que tome forma
de um animal: focinho, corpo, patas.



Em cada pata ponha muitas unhas

e em sua boca muitos dentes. (Caso

queira, pinte o focinho de qualquer
cor que pareça rosa). Atrás, na bunda,



ponha um fiapo nervoso: será seu

rabo. Pronto. Ou quase: deixe-o lá

fora e espere chover nanquim. Agora



dê grama ao bicho. Se ele rejeitar,

é dálmata. Se comer (e mugir),

é uma vaca que tens. Tente outra vez.





o bairro de botafogo

se fosse um senhor

usaria óculos fundo
de garrafa e daria
bom-dia aos pássaros
cantores que já não
moram na varanda.






ligue os pontos


enquanto você dormia liguei

os pontos sardentos das suas

costas na esperança de que
a caneta esferográfica revelasse

a imagem de algum ser mitológico
de nome proparoxítono o mapa
detalhado de algum tesouro
submerso formasse quem sabe

alguma constelação ruiva oculta
na epiderme e me deparei
com o contorno de um polígono

arbitrário que não me fornecia
metáforas não apontava direções
simplesmente dizia: você está aqui.






difícil ser feliz nas festas de santa
teresa ou sentado nas escadarias
da lapa por melhor que seja
sua companhia é difícil ser
sinceramente feliz na
pizzaria guanabara às
cinco da manhã em
meio a pedaços de
pizza fria e o cigano
igor de chapéu há
lugares em que
você sabe que
não vai ser
feliz mas
vai







Se eu morresse amanhã - Cecília Nascimento


Se eu morresse amanhã
Cecília Nascimento

Se eu morresse amanhã, viriam me prestigiar meu corpo inerte, num caixão que eu quisera azul, os meus alunos, aqueles que me amam e os que me ignoram trariam juntos condolências à minha família, relembrando os bons momentos que, julgariam eles, tivéssemos vivido juntos. Seguidas postagens chegariam ao meu Face, já desinstalado, com abundância de emojis e citações dos meus “feitos” pela educação que eu quisera possível. Nos grupos das turmas a mensagem que mais percorreria seria a da morte abrupta da sofressora, intercalada, é claro, por uma ou outra piadinha sem graça ou alguma corrente da vida...
Se eu morresse amanhã, minha família levaria a mão à cabeça tentando entender o porquê de tamanha tragédia. Pensaria com dedicação nas razões para minha vida ter sido ceifada tão brevemente sem compreender que meu sofrimento nada teve de breve e que desde a nascença já tinha sido fadada ao fim precoce, havendo lutado muito para prolongar o inadiável. Certamente, no hospital, minha mãe relembraria, tomando algum tarja preta, os muitos momentos que ali vivi com ela, quase sem ar, quase morrendo, quase melhorando, mas nunca me curando, quase internada, quase desistindo, quase lutando, quase vivendo, mas só agonizando.
Se eu morresse amanhã, os conhecidos e desconhecidos viriam tomar café no funeral e comentar que eu morei tantos anos nessa cidade e quase ninguém me conhecia. Seria necessário abrir o caixão várias vezes ou reparar na foto ao lado para tentar identificar quem foi essa mulher que partiu sem sequer deixar marcas de ter vindo. Espero que meu cabelo esteja bem vermelho na foto.
Se eu morresse amanhã, aqueles que guardam mágoas e de quem carrego nódoas no coração viriam visitar-me o cadáver, a fim de se certificarem de que seus problemas realmente tiveram fim, de que aquela vida não mais os perturbaria sequer com a lembrança da existência, pois já não mais havia. Problema resolvido, fato consumado, vida que segue, prazer disfarçado em pêsames e olhares desconfiados.
Se eu morresse amanhã, morreriam comigo todas as minhas saudades que hoje ainda em vida me fazem morrer um pouco por dia. E, juntamente com minha mala cheia de memórias, seriam enterradas as esperanças que eu alimentei até o último suspiro de que o tempo seria condolente comigo, me restituindo a alegria de viver.
Se eu morresse amanhã, os amores que tive viriam talvez visitar o corpo, pensariam, ao me ver, que não fui lá grande coisa e que melhor estão agora não apenas com outras pessoas, mas definitivamente sem mim, que de todas as experiências, as piores foram as que ficaram, que de todos os acertos, os erros foram os que marcaram, que de todas as iniciativas, minhas recusas foram a que foram lembradas, que de toda a dedicação, a minha partida foi a que foi considerada, que de tudo que vivemos, o que não vivemos é que foi suplantado e que diante de tudo isso, a minha morte foi a melhor partida que já concedi. Com ela, deixei-lhes a certeza de que viva já não fazia falta e morta já não se lamentava. Certeza melhor não há do que a superação. Segredo esse que, se eu morresse amanhã, morreria sem saber como é ter esse prazer, o de superar.
Se eu morresse amanhã, minha filhinha lamentaria sem fim, mas um dia estaria ciente que durante todos os dias em que vivi após sua vinda, foi por ela que vivi, foi por ela que lutei, foi por ela que trabalhei, foi por ela que sorri, foi por ela que dei meu melhor, foi por ela que resisti até a última respiração, e se não continuei a respirar, foi por fraqueza e confesso, meu ponto fraco sempre foi o ponto final.
Se eu morresse amanhã, deixaria uma carta em forma de crônica para todos os que quisessem ler... O gosto daquela última crônica seria inigualável. Ao compô-la, minha garganta estaria travada, meu pescoço de tão rígido doeria, meus olhos mal enxergariam de tantas lágrimas, minha filha interromperia a escrita várias vezes pedindo biscoito de chocolate, sem imaginar que eu morreria amanhã...
Se eu morresse amanhã, meus livros seriam doados para o sebo da ribeira e cada leitor que por eles passasse a vista, veria que entre aquelas páginas se construiu uma mulher que se quis forte, que se quis poeta, que se quis romântica, que se quis revoltada, que se quis inquieta, que se quis militante, que se quis viva e que através dos livros e de alguns textos seus, permanecerá viva na memória de poucos. É no final das contas para esses poucos que eu escrevo antes que eu morra amanhã.
Às vezes o amanhã chega ainda hoje; às vezes demora tanto, às vezes nem amanhece...

Ó lama que nos afoga - Hélio Crisanto


Ó lama que nos afoga
Lei jurássica que não voga
Bandido vestindo toga
Que triste realidade
Jogando no mesmo time
A justiça nada exprime
Assôa a venta do crime
No lenço da impunidade

(Hélio Crisanto)