APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


sábado, 24 de junho de 2017

Ditadura Familiar - Cecília Nascimento


Ditadura Familiar

Era tardinha. Tinha posto o cuscuz no fogão e o café passava quando ouviu baterem na porta com sons estridentes. Antes que girasse a maçaneta, empurraram a porta ferindo-lhe a face. Logo, antes que atentasse para quem lhe invadia o lar, foi acusada de resistência e desacato, o que lhe resultou em pontapés, socos abdominais e muitos ais. Não. Não entendia o porquê daquele assalto.
De olhos baixos, já inchados, e corpo dolorido estendido no chão, a Dama In-nocente contemplou a face dos seus algozes. Seu peito expeliu um grito perdido no olhar: Eram seus irmãos, filhos do mesmo pai! Todos haviam sido adotados amorosamente há alguns anos e conviviam na mesma rua; todas as despesas eram arcadas pelo gracioso benfeitor; tudo o que usufruíam era ofertado pela graça.
Os primeiros anos de convivência foram pacíficos. A irmandade se conhecia cada vez mais e embora muito distintos uns dos outros, mais e mais se alegravam em perceber o quanto que se completavam. Eram felizes.
Aconteceu que, há algum tempo, a maior parte dos filhos estava ficando cada vez mais empenhada. Cada um queria mostrar para os demais o quanto amava o pai mais que os demais. O que eles estranhavam era que a Dama In-nocente não concorria nos mesmos propósitos; antes, todos os dias, aquecia um café fresquinho e fazia um cuscuz, saboreando, com o lanche, a companhia do seu Pai. E como se não bastasse, ela ainda recebia visita de pessoas de outras ruas que não pertenciam àquela Família. Deixava até que tais pessoas comessem do mesmo alimento que ela comia e não media esforços para compartilhar tudo quanto recebia do Pai. Nisso faltava frequentemente às reuniões na Grande Árvore, onde se reuniam todas as tardes para discorrerem a respeito do quanto cada um amava mais o pai mais que os demais.
Era inconcebível que a Dama In-nocente se ausentasse de tantas atividades importantes para eles. Imaginem que ela sequer prestava relatório de quantas cartas de agradecimento escrevia por dia e de quantos depoimentos ela publicava para que todos tomassem conhecimento da sua gratidão em ter sido acolhida na família. Que fazia ela em casa todas as tardes? Com quem conversava tanto? Estaria metida em ilegalidades?
Naquela tardinha, o Pai se demorava e a Dama In-nocente adiantou o jantar simples de sempre. Havia tanto para conversar! Por que ele tardava? Quando ouviu as batidas na porta suspirou um finalmente. Ledo engano. Resultado: Corpo ferido estendido no chão.

***

O cárcere era escuro e gélido. A Dama In-nocente, sedenta e faminta, gemia. Seus olhos haviam inchado de tal forma que mal conseguiam distinguir coisas ao redor. Dias se passaram e a ferida Dama alimentava-se de escassos pães asmos que mantinham-lhe a vida e uma gotícula de vinho que regava-lhe a fé.

***

Era manhã cedinho. O sol despejava sobre o cárcere seus raios viçosos. A porta abriu-se rançosa como se há muito imóvel. Lá fora, muitos a cochichar. Alguns exaltados se sobressaíam e, pelo rumor destes, era possível distinguir a oposição da massa. Cancelem! Cancelem o registro! Tomem-lhe a propriedade! Os murmúrios persistiram...
A Dama In-nocente foi conduzida a uma cadeira e prenderam-lhe pés e mãos; foi-lhe amordaçada a boca e logo em seguida começaram a votação. O primeiro falante disse:
- A Dama Nocente é culpada. Ela pouco se reunia na Grande Árvore para prestar contas de sua gratidão pelo Pai. Cancelem sua adoção!
Arfante de ódio, o segundo falante logo anunciou seu voto:
- Culpada! Sequer publicou os depoimentos obrigatórios que notificavam seu amor pelo Pai.
O terceiro, o quarto e todos que depunham lembravam de outras atrocidades cometidas pela Dama que já fora rebatizada de Nocente, tais como não publicar as cartas e descasos semelhantes. Não havia como remediar; deveria ser banida da rua a fim de não contaminar a amorável fraternidade. Não poderiam mantê-la naquela rua afortunada.
Ao ser expulsa , ferida e dolorida, a Dama Nocente percorreu meio caminho até que sentiu as mãos dEle a lhe segurar.
- Venha, filhinha. Há muito não conseguia entrar na rua para te visitar. Recebe de volta teu nome e reside comigo.

***

Todas as tardes a Dama In-nocente se regozija ao fazer um cuscuz saboroso e um café quentinho a quem muito lhe amou.

***

Os demais filhos adotivos continuam publicando entre si seus sinceros depoimentos que, infelizmente, jamais chegaram à casa do Bondoso Pai...

Cecília Nascimento
16 de outubro de 2009, 20h22min.