APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


sábado, 10 de junho de 2017

GREGÓRIO DUVIVIER: POEMAS


o meio de todas as coisas


entre o fim do começo e o começo
do fim toda coisa tem uma massa
inerte feito ponte pela qual
passamos distraídos - ou não:
os astecas sentiam chegar o exato
momento do meio da vida - o meio
do meio da vida, o momento em que
o que já vivemos é exatamente
igual ao que ainda não vivemos
- e nesse momento preciso o mais
comum dos astecas sentia uma súbita
e inexplicável vontade de tomar um trem
mas como ainda não o tinham inventado
ele acabava por entristecer-se.
(daí a tristeza, essa vontade de algo
que ainda não inventaram)





a palavra para que antes fazia as pessoas
pararem agora já não tem acento igual
à palavra para que indica que as pessoas
estão indo para algum lugar geralmente
sem parar isso é um sinal dos tempos
o que antes parava agora não para não


felizes são as pessoas nas fotos
de escola da minha avó
que não sabem ainda
que vão ser avós

e isso se tudo der certo
e elas não morrerem antes




no princípio era o verbo
uma vaga voz sem dono
vagando pela via láctea.

depois veio o sujeito
e junto com ele todos
os erros de concordância.






unha e carne


eram como unha e carne os dois

e como unha e carne partiram-se
em metades injuntáveis ambos
sob o alicate inox e ela
repousa no ladrilho, âmbar:
lua minguante sobre o bidê. 







sobre a exaustão das retinas


ja não me diz nada um por do sol em cancun
e um coqueiro em alto-mar já vagou por protetores
de tela demais para me causar qualquer sensação
de bem-estar; os casais parisienses que habitam
calendários já não me dão sequer vontade
de ir a paris assim como não me comovem
mais as crianças de sebastião salgado nem
a menina que foge do ataque do napalm
e que em breve estampará cangas e biquínis;
as imagens estão gastas e não há nenhuma
que erga pontes como a palavra que.
  





Soneto para construir janelas


         para Paulo Henriques Brítto


Erguer antes de tudo uma parede -
a parede no caso é importantíssima,
pois as janelas só existem sobre
paredes, as janelas sobre nada


são também nada e não são sequer vistas.
Em seguida, quebrá-la até fazer
nela um grande buraco, não maior
que a parede, pois precisamos vê-la,


nem menor que seus braços - as janelas
sobre as quais não se pode debruçar
não são janelas, são buracos. Pronto.


Ou quase: agora basta construir
um mundo do outro lado da parede,
para que possas vê-lo, emoldurado.






posto nove e meio
açaí açaí — você conhece o waldo — olha o mate — waldo que waldo — é o melhor musse do rio
de janeiro — agora joga um spray nas minhas costas — conheço um waldo que morreu —
meumusse é o melhor — o waldo não morreu quem morreu foi o walter — foi o waldo — empada
praiana — foi o walter — sabe que — açaí — no fundo — açaí — eu acho que o nome dele era —
olha — waldo mesmo — o mate — porra tu — guaraplus — tacou spray — guaraplus — no meu
olho — o waldo — mate — ele mesmo — então, morreu — olha o mate — para morrer, meu amigo
— mate — basta estar vivo.





Receita para um dálmata


(ou: Soneto branco com bolinhas pretas)




Pegue um papel, ou uma parede, ou algo

que seja quase branco e bem vazio.

Amasse-o até que tome forma
de um animal: focinho, corpo, patas.



Em cada pata ponha muitas unhas

e em sua boca muitos dentes. (Caso

queira, pinte o focinho de qualquer
cor que pareça rosa). Atrás, na bunda,



ponha um fiapo nervoso: será seu

rabo. Pronto. Ou quase: deixe-o lá

fora e espere chover nanquim. Agora



dê grama ao bicho. Se ele rejeitar,

é dálmata. Se comer (e mugir),

é uma vaca que tens. Tente outra vez.





o bairro de botafogo

se fosse um senhor

usaria óculos fundo
de garrafa e daria
bom-dia aos pássaros
cantores que já não
moram na varanda.






ligue os pontos


enquanto você dormia liguei

os pontos sardentos das suas

costas na esperança de que
a caneta esferográfica revelasse

a imagem de algum ser mitológico
de nome proparoxítono o mapa
detalhado de algum tesouro
submerso formasse quem sabe

alguma constelação ruiva oculta
na epiderme e me deparei
com o contorno de um polígono

arbitrário que não me fornecia
metáforas não apontava direções
simplesmente dizia: você está aqui.






difícil ser feliz nas festas de santa
teresa ou sentado nas escadarias
da lapa por melhor que seja
sua companhia é difícil ser
sinceramente feliz na
pizzaria guanabara às
cinco da manhã em
meio a pedaços de
pizza fria e o cigano
igor de chapéu há
lugares em que
você sabe que
não vai ser
feliz mas
vai